Para muitas pessoas, uma cicatriz representa apenas uma marca no corpo. Para outras, ela carrega lembranças difíceis, inseguranças e traumas que permanecem por anos. Foi pensando em transformar essas histórias que a publicitária e tatuadora Andressa Monike Fialho criou o projeto Linhas de Recomeço, iniciativa social que utiliza a tatuagem artística para ressignificar cicatrizes físicas e emocionais, especialmente entre pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.
Há seis anos atuando como tatuadora e à frente do Gato Preto Studio, em Maceió, Andressa sempre enxergou a tatuagem como uma ferramenta de transformação. Em 2026, decidiu fazer desse propósito ação social ao lançar o projeto, que ofereceu gratuitamente procedimentos de cobertura artística de cicatrizes.
Segundo ela, a ideia surgiu ao perceber que muitas pessoas conviviam com marcas deixadas por cirurgias — principalmente de retirada das mamas —, acidentes ou episódios de automutilação, mas evitavam buscar esse tipo de procedimento por vergonha ou medo de julgamento.
“Percebi que muitas pessoas deixavam de procurar esse atendimento porque não se sentiam seguras ou acolhidas. Mais do que oferecer uma técnica, eu queria criar um espaço onde elas encontrassem respeito, escuta e segurança durante todo o processo”, explica.
Lançado em junho, durante o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, o projeto recebeu inscrições gratuitas. Os participantes passaram por um processo de seleção que incluiu formulário e avaliação presencial, com acompanhamento do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT-AL).
A iniciativa também contou com o apoio da E-Tattoo, responsável pelo fornecimento dos materiais utilizados nas tatuagens, e da Panta Cosméticos, que disponibilizou os produtos para os cuidados durante a cicatrização.
Muito além da tatuagem
Para Andressa, cada procedimento representa a oportunidade de devolver confiança a pessoas que, durante anos, evitaram olhar para o próprio corpo.

“É impossível não me emocionar acompanhando cada resultado. Ver a reação das pessoas diante do espelho, perceber a felicidade e o alívio de reencontrarem uma relação mais positiva com o próprio corpo é algo que não tem preço. Receber essa confiança é uma enorme responsabilidade e também um privilégio”, afirma.
Histórias de transformação
A mudança foi sentida na prática pelo estudante de Psicologia Lucas Levi, de 20 anos. Durante muito tempo, ele evitava usar determinadas roupas por causa das cicatrizes. Ao conhecer o projeto, decidiu participar.
“Foi um processo muito grande de ressignificação. Desde que fiz a tatuagem, me sinto muito melhor em relação às cicatrizes. Hoje consigo vestir roupas que antes não conseguia usar. É a tatuagem mais importante que tenho, porque é a que carrega mais significado”, conta.
O estudante de Contabilidade Felipe Santos, de 25 anos, também afirma que a experiência mudou sua forma de enxergar o próprio corpo.
“Eu me sentia intimidado pelos olhares e por perguntas desnecessárias. Hoje sinto que estou recomeçando. Estou mais confiante para ocupar os espaços sem precisar me esconder ou me preocupar com julgamentos”, relata.
Projeto continua com atendimento social
Embora a etapa gratuita tenha sido concluída após o encerramento das inscrições, o Linhas de Recomeço continua ativo. O atendimento segue sendo realizado no Gato Preto Studio por meio de um valor social, ampliando o acesso de pessoas que desejam ressignificar suas cicatrizes.
Atualmente, Andressa também realiza uma especialização em dermatologia estética para aprofundar seus conhecimentos sobre cobertura de cicatrizes e ampliar o alcance social do trabalho.
Serviço:
Gato Preto Studio: (82) 99691-9569
Instagram: @gatopreto.studio









