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Paixão pelo vinil conecta gerações e movimenta a cultura da música analógica em Alagoas

Vinil na Área reuniu feira de discos raros, discotecagem e garimpo afetivo, sendo ponto de encontro entre colecionadores da capital e do interior

Vinil, LP ou bolachão. São várias as formas de chamar o famoso disco de vinil. A maneira modesta de escutar música nos anos 60, 70 e 80 foi deixada de lado com a chegada do compact disc (CD), no final dos anos 90. Mas as gerações Z, Y e Millennials resolveram ressuscitar essa forma de curtir música.

Hoje vivemos uma nova era, em que o vinil recuperou o protagonismo e reúne gerações em busca de nostalgia e de um ritual diferenciado de audição.

O amor pelo LP, o aumento da procura e a venda de discos como fonte de renda vêm transformando a programação cultural em Alagoas. Neste sábado (7), ocorreu a terceira edição do Vinil na Área, no bairro do Farol, e a equipe de reportagem do Alagoas Notícia Boa foi conferir de perto esse evento que cresce a cada edição.

Eu, Beatriz, repórter que assina esta matéria, coleciono discos de vinil há pouco mais de um ano. Movida pelo jornalismo e também pela paixão, me perguntava de quem havia sido a ideia de desenvolver um espaço capaz de reunir tantas raridades e afetos em um só lugar.

Acompanhe nesta reportagem os encontros que reuniram, na noite de sábado, alagoanos em uma só batida, em um só “disco”.

A grande ideia

A iniciativa partiu de Déborah, da Ginga Discos, uma das idealizadoras do evento. A proposta sempre foi ir além do comércio tradicional e transformar o encontro em um polo de conexão cultural, somando artes visuais, discotecagem 100% analógica e formação para novos DJs.

“O Vinil na Área nasceu da vontade de fazer mais do que uma feira de discos. A gente queria envolver as pessoas em torno da música e da mídia física, criando uma atmosfera completa que não se encerra no dia do evento, mas reverbera em formação e novas conexões”, explica Déborah.

As Deboras e seus respectivos parceiros, as grandes estrelas e fundadores do Vinil na Área

Essa faísca começou em casa, quando a paixão pela música a levou ao primeiro contato com o formato, experiência que, anos mais tarde, virou negócio com a loja que já soma mais de seis anos de mercado. A transição de colecionadora para produtora cultural foi o caminho natural para dar vida ao projeto.

“Para quem ama música, o primeiro contato com o vinil é marcante porque é quando você finalmente consegue segurar sua paixão nas mãos. Foi desse sentimento que nasceu a Ginga Discos e, em seguida, o desejo de ver essa cena pulsar forte aqui”, completa.

Todo vendedor, antes, é colecionador

Por trás de cada bancada, há uma trajetória que quase nunca começa pelo comércio, mas sim pelo garimpo pessoal. Vender vira um desdobramento quase inevitável do colecionismo. No evento em Maceió, encontramos arapiraquenses que foram buscar inspirações para levar ao interior.

Para Carlos Eduardo, conhecido como Cadu, da Sonora Discos e da produtora Attack Sonöro Produções, havia uma carência latente em Arapiraca por espaços de garimpo. Vindo do cenário do rock e do metal, no qual mantém uma coleção de cerca de mil CDs acumulados desde a adolescência, ele ingressou no universo dos LPs há cerca de cinco anos. A demanda de outros apaixonados o motivou a produzir eventos, abrir loja física e ocupar feiras no Agreste alagoano.

Cadu e Renato, um dos maiores fornecedores de LP de Maceió, aproveitam para completar a coleção de disco

“A gente gosta do resultado comercial, claro, mas, como também somos colecionadores, vendemos para comprar. É um hobby remunerado. A ideia é essa: de colecionador para colecionador, fortalecendo quem compartilha a mesma paixão pela mídia física”, resume Carlos.

A mesma rota de convergência é apontada por Elder Pereira, da “Bolinha Discos” e professor de Filosofia em Arapiraca. Dono de um acervo impressionante de aproximadamente 4 mil títulos, ele encontrou na banca uma forma prática de gerir o próprio volume e girar a coleção sem perder a essência do garimpo.

“Cada história de expositor é particular, mas a maioria converge no mesmo sentido: a gente começa a comprar para si, vai acumulando e chega um momento em que precisa desapegar e revender. Não é minha atividade principal, então vendo para não acumular tanto”, pontua Elder.

Ao observar o movimento das caixas ao longo do tempo, o professor nota ainda que a procura se transforma em ciclos que refletem resgates culturais e novas curiosidades geracionais.

Elder é professor, mas nas horas vagas, coleciona e vende vinil

“Varia de período para período. Teve época em que vendia muito mais rock, depois MPB, e hoje vemos uma procura muito forte pelo forró dos anos 70, aquelas raridades. Seja por influência das redes ou por movimento orgânico, o fato é que as pessoas têm buscado se conectar muito mais com a mídia física”, conclui.

E quem compra, nunca compra só um

Basta circular alguns minutos entre os caixotes de madeira para constatar a regra: quase ninguém sai de mãos vazias, muito menos com um único exemplar debaixo do braço. O ato de garimpar é um convite irresistível. Cada capa folheada desperta memórias afetivas, revela uma raridade ou entrega aquele clássico que faltava na estante. Quando se percebe, a sacola já está cheia.

Talvanes Eugênio, professor de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em Arapiraca, encerrou a noite com uma verdadeira seleção de preciosidades nos braços, focado especialmente em resgates históricos da música nordestina.

“O saldo foi extremamente positivo. Vim atrás de forró, de raridades, e encontrei tudo o que desejava: o álbum Coisas Proibidas, de 1977, do grupo Os 3 do Brasil, com tiragem baixíssima; o Gira o Mundo, da Marinês, autografado — o último trabalho dela em vinil antes de migrar para o CD; Edson Duarte também autografado; Otávio; e um álbum raríssimo de 1977 do Dominguinhos, o Oi, Lá Vou Eu. É nota dez”, comemorou.

Talvanes destacou o potencial da feira, que vem crecendo a cada edição

Para o professor, o diferencial está na capacidade do espaço de reunir manifestações diversas e promover o encontro humano. A compra, nesse cenário, é apenas a ponta de uma vivência mais ampla.

“É um evento muito importante para quem coleciona. Além de difundir a música brasileira e mundial, você encontra artes plásticas, outros artigos e muita troca de ideias. É um ambiente que vai além de escutar ou comprar discos: é sobre socialização e difusão de pensamento”, destacou Talvanes.

Quem coleciona e comanda o som

A programação do Vinil na Área contou não apenas com a feira de discos, mas também com discotecagens ao vivo, flash tattoos, praça de alimentação e bebidas. 

A trilha sonora ficou por conta de DJ Goodson, DJ Cilo, Chico Torres, DJ Grazi (do projeto Forrozinho) e Claudia Leite. O evento também promoveu encontros nos toca-discos entre a DJ Talita e Neiva Lamparina, e entre o DJ Gabriel Melo (Pernambuco) e o DJ Jeff (Paraíba), ampliando o intercâmbio entre seletores nordestinos.

Colecionadora há mais de duas décadas, a DJ Talita levou seu acervo para as pistas há dois anos, marcando presença em todas as edições do encontro. 

Talita foi uma das DJs que deixou ainda mais animado o Vinil na Área

“Comecei aos 17 anos com amigos que entendiam a mídia física como um ritual de escuta. Fui discotecar por curiosidade e por sentir que meus discos precisavam romper as paredes de casa, para que as pessoas conhecessem o meu repertório”, relata.

Sua pesquisa musical une o cancioneiro brasileiro a resgates históricos e espirituais. “Minhas grandes referências são Rita Lee e Ney Matogrosso, mas há cinco anos me dedico a garimpar discos de macumba e afro-religiosidades. Há uma riqueza singular nessas gravações; a própria rusticidade dos registros históricos agrega muito valor e verdade à obra”, pontua a DJ.

No chiado que antecede cada faixa, o evento destaca a permanência do analógico como um elo geracional. Como resume Talita, a força do formato reside no acolhimento.

“O vinil é ilimitado, cabe todo mundo e todos os gostos. O público tem se redescoberto através dessa mídia e, mesmo com a praticidade do streaming, nada substitui essa presença física”.

No fim, a repórter também não saiu de mãos vazias

Desta vez fui também espectadora, aproveitando o clima para produzir este material. Levei meu avô para passear; ele, que viveu o auge da era do vinil, aproveitou para relembrar clássicos da juventude, como The Beatles e o Clube da Esquina, do Milton Nascimento.

Também reencontrei uma grande amiga, fã de Rita Lee, jornalista e uma das responsáveis por me incentivar a entrar no mundo do vinil. Ela foi a garota propaganda da segunda edição, a qual eu também fiz cobertura jornalística.

O album Babilônia e Zona Zen não fazem parte – ainda – da minha coleção da Rita Lee

Sou apaixonada pela obra de Rita Lee e tenho quase toda a discografia. Mas, desta vez, não levei os discos que eu e Miriam seguramos na foto — e que ainda faltam na minha estante. 

Voltei para casa com o clássico Krig-ha, Bandolo!, de Raul Seixas, álbum de 1973 que imortalizou “Metamorfose Ambulante”. Afinal, resistir ao garimpo é praticamente impossível.

Confira o vídeo produzido pelo Alagoas Noticia Boa para mostrar um pouco de como foi.