O mar brasileiro vive uma de suas maiores vitórias ambientais. Em pouco mais de três décadas, a população de baleias-jubarte saltou de cerca de 1,5 mil animais, no início dos anos 1990, para mais de 35 mil hoje, um crescimento de mais de vinte vezes. A espécie se recuperou após a proibição da caça no país em 1987 e graças ao trabalho contínuo de preservação liderado pelo Instituto Baleia Jubarte.
Com a população em alta em águas nacionais, as jubartes voltaram a reocupar suas rotas tradicionais pelo litoral brasileiro, e as águas mornas de Alagoas voltaram a ser um grande berçário da espécie.
Em entrevista exclusiva ao Alagoas Notícia Boa, o professor e biólogo Cláudio Sampaio, conhecido como Buia, do Laboratório de Ictiologia e Conservação (LIC) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal – Campus Penedo), explica a importância do nosso estado para a sobrevivência desses animais.
“O litoral alagoano foi historicamente uma área importante para as jubartes. Nossas águas são rasas, quentes e têm poucos predadores naturais, como orcas e grandes tubarões. Elas servem tanto de local de reprodução, cópula, gestação e nascimentos, quanto como corredor para as que migram aos estados mais ao norte. Costumo dizer que todos os filhotes recém-nascidos que registramos aqui são alagoanos”, destaca o pesquisador.
Saltos visíveis da areia e registros em alta
As baleias viajam quase 5 mil quilômetros desde as águas geladas da Antártica até o litoral brasileiro. Na costa alagoana, a temporada vai de julho a outubro, com o pico de avistamentos concentrado entre agosto e setembro, período em que os animais acasalam e amamentam seus filhotes.
A presença dos cetáceos já chama a atenção de moradores e pescadores de norte a sul do estado:
“Elas já foram vistas saltando bem em frente à Praia do Francês, acompanhadas por banhistas da areia. Nas proximidades do Pontal do Peba, pescadores relatam encontros frequentes: algumas são tímidas, enquanto outras saltam e chegam bem perto das embarcações”, relata Buia.
A equipe da Ufal realiza cruzeiros científicos pelo Litoral Sul, entre o Pontal do Peba e a foz do Rio São Francisco, onde fotografa as caudas dos animais (que funcionam como uma impressão digital única) e grava o canto dos machos. Em 2023, o laboratório bateu recorde ao registrar 20 jubartes, sendo seis filhotes, em apenas quatro horas e meia de navegação.
Além das jubartes, o litoral alagoano também recebe visitas de baleias-minke, baleias-fin, cachalotes e baleias-bicudas.
Oportunidade de ecoturismo no inverno
O retorno dos animais já mudou a realidade de cidades da Bahia, como Caravelas, onde o turismo de observação faz o mês de agosto movimentar mais dinheiro do que o próprio verão. A atividade substituiu a pesca tradicional e gerou empregos diretos para barqueiros e condutores. Um estudo internacional calculou que os serviços ecológicos e o ecoturismo ligados às baleias no Brasil superam US$ 82 bilhões em valor agregado.
Para Cláudio Sampaio, Alagoas tem tudo para seguir esse mesmo exemplo de sucesso sustentável durante a baixa temporada:
“O turismo de observação tem grande potencial em Alagoas. No Pontal do Peba já existem pescadores levando pequenos grupos de visitantes. Pontos como Praia do Francês, Maceió e Maragogi também têm enorme vocação, especialmente por ser uma ótima alternativa de renda para o inverno”, aponta.
O biólogo alerta, contudo, que a atividade exige responsabilidade: “Para virar realidade, precisamos de capacitação para guias e mestres de barco. Molestar ou perseguir baleias, golfinhos e peixes-bois é crime federal”. Pelas normas ambientais, as embarcações devem ficar a pelo menos 100 metros de distância e não podem cercar os animais.
Cuidados em caso de encalhe
Com mais baleias nadando pelo estado, os registros de encalhes de animais machucados ou sem vida também aumentaram. A recomendação do especialista para a população é clara:
“Animais encalhados são importantes fontes de pesquisa, mas só pessoal capacitado deve mexer neles. Eles podem transmitir doenças ou causar acidentes graves por causa do peso e da força da cauda. Ao encontrar um animal na praia, a orientação é isolar a área e acionar os órgãos ambientais imediatamente”, conclui Buia.
Em Alagoas, quem encontrar uma baleia encalhada deve acionar as equipes de resgate e órgãos ambientais como Instituto Biota de Conservação, Ufal, IMA-AL, ICMBio ou Ibama.









