Uma dissertação desenvolvida por um estudante de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura (PPGLL) se tornou o primeiro trabalho da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) a ser apresentada em um espaço de terreiro de Candomblé. A pesquisa, apresentada no mês de março, tem como tema “Entre o dito e o silenciado: O funcionamento discursivo do “Pedido Perdão” de Amaurício de Jesus.
De acordo com a professora e orientadora da pesquisa, Débora Massmann, a Ufal funciona como ponte entre universidade e comunidade.
“Ao sustentar esse tipo de iniciativa, a Ufal contribui para que o conhecimento não fique restrito ao espaço acadêmico, mas circule, retorne e dialogue com os sujeitos que o produzem na prática. Há um papel formativo: a instituição promove um modelo de aprendizado crítico e situado, no qual estudantes e pesquisadores são incentivados a construir saberes comprometidos com a realidade social, com ética e responsabilidade.
Para o pesquisador, Amaurício de Jesus, a defesa no espaço de terreiro mostra um ato simbólico de aproximação entre os saberes tradicionais e acadêmicos, em que o discurso dos excluídos esteve presente.
“O pedido de perdão opera como um gesto simbólico importante, que reconhece a violência histórica e seus impactos para as comunidades tradicionais de terreiro, porém se faz necessário implementar políticas públicas reparatórias e efetivá-las. É preciso reconhecer a resistência das casas de axé que não deixaram as tradições e as manifestações culturais desaparecerem, que protagonizam a construção de uma sociedade mais democrática e diversa”, afirma Amaurício de Jesus,.
A aproximação com as casas e lideranças do axé possibilitou que ele estivesse sempre envolvido com as ações de celebração à memória do “Quebra”, do pedido de perdão e do processo de tombamento da Coleção Perseverança, o documento mais importante para a memória religiosa afro-alagoana.
Axé Pratagy
Débora Massmann destaca que a iniciativa inédita de apresentar um trabalho em um terreiro está além de uma escolha simbólica.
“A realização da banca de defesa de mestrado de Amaurício de Jesus no terreiro Axé Pratagy, fora dos muros da universidade, produz um deslocamento epistemológico e político de grande densidade. Não se trata apenas de uma escolha logística ou simbólica, mas de um gesto que mostra a própria ideia de onde o conhecimento pode ser legitimamente produzido, validado e compartilhado”.
Em um cenário ainda marcado por racismo religioso, marginalização das religiões de matriz africana e disputas por legitimidade, levar a universidade ao terreiro é um ato de enfrentamento. É afirmar que esses espaços não apenas resistem, mas também produzem teoria, crítica e pensamento.
Mesmo diante dos entraves institucionais (normativos, burocráticos e simbólicos) que ainda regulam o que pode ou não ser reconhecido como espaço legítimo de avaliação acadêmica, a realização da banca no Axé Pratagy evidencia fissuras nesse modelo e aponta para sua transformação”, afirma.
A Quebra de Xangô
No dia 1º de fevereiro de 1912 a perseguição às religiões de matriz africana registrou e marcou em Alagoas um violento episódio de intolerância religiosa. Terreiros de candomblé foram destruídos em Maceió, objetos sagrados queimados, pais e mães de santo atacados na tentativa de apagar a cultura-afro-brasileira no Estado, então governado por Euclides Malta.
O acontecimento, que passou a ser conhecido como Quebra do Xangô, teve José Fernandes de Barros Lima, líder da oposição e posteriormente governador de Alagoas, apontado como um dos autores intelectuais da perseguição, e configurou-se como um marco de intolerância religiosa.
Cem anos depois, em 1º de fevereiro de 2012, veio o pedido de perdão, oficializado pelo então governador Teotônio Vilela Filho. O ato assinado reconhece a violência institucional do passado, mas a luta pela preservação da memória e pela justiça histórica continua em meio a persistentes desafios.










