Pela primeira vez na história, Alagoas passa a integrar formalmente a Rede Nacional de Métodos Alternativos ao Uso de Animais (Renama), iniciativa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O credenciamento inédito de duas unidades da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) coloca o estado no mapa brasileiro de desenvolvimento de tecnologias científicas éticas, focadas em reduzir ou substituir o uso de animais em experimentos e testes laboratoriais.
Os novos integrantes são o Laboratório de Microbiologia Ambiental e Médica (Lamam), do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), coordenado pela professora Thais Fernanda de Campos Fraga da Silva, e o Laboratório de Bioenergética, do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB), sob liderança da professora Ana Catharina Rezende Leite.
Além da entrada na rede nacional, o grupo do IQB conquistou um aporte financeiro de peso: teve proposta aprovada na Chamada CNPq/MCTI nº 11/2026, garantindo mais de R$ 802 mil para infraestrutura, insumos e bolsas de estudo. O projeto alagoano foi um dos três únicos selecionados em toda a região Nordeste.
Criada em 2012, a Renama reúne instituições públicas e privadas em todo o país dedicadas à infraestrutura de ensaios não clínicos e à aplicação do princípio dos 3Rs (Replacement, Reduction and Refinement — Substituição, Redução e Refinamento).
Cultivo celular e modelos inovadores no ICBS
No ICBS, o Lamam desenvolve pesquisas voltadas a infecções bacterianas e fúngicas, epidemiologia molecular e resposta imunológica. Desde 2024, o laboratório já aplica métodos alternativos com auxílio de recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), por meio do edital Pró-Equipamentos.
A equipe utiliza linhagens celulares humanas (in vitro) e adota o modelo da Galleria mellonella, uma espécie de mariposa/inseto que viabiliza investigar a ação de patógenos e reações biológicas sem a necessidade de recorrer a vertebrados nessas fases.
“A inserção na Renama poderá ampliar a capacidade nacional de desenvolvimento, implementação e disseminação de métodos alternativos reconhecidos pelo princípio dos 3Rs, favorecendo a integração com laboratórios de referência”, aponta a professora Thais Silva. “Essa é uma demanda global e o caminho do futuro da pesquisa.”
A pesquisadora reforça que, embora testes finais de vacinas e certos medicamentos ainda exijam etapas tradicionais, a consolidação desses métodos diminui expressivamente o uso de animais ao longo dos processos científicos.
Dupla conquista no IQB: credenciamento e verba federal
No Instituto de Química e Biotecnologia, a aprovação do credenciamento e os R$ 802 mil concedidos pelo CNPq vão equipar e acelerar as atividades do Laboratório de Bioenergética.
O grupo de pesquisa liderado pela professora Ana Catharina Rezende Leite conta também com os professores Edeildo Ferreira da Silva-Júnior e Tatiane Balliano (ambos da Ufal), em parceria com Diego Martinez, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
A equipe atua na triagem de toxicidade de novos compostos químicos a partir de três modelos biológicos:
- Daphnia similis: microcrustáceo de água doce amplamente empregado em ensaios de ecotoxicidade;
- Zophobas morio: inseto que se torna besouro na fase adulta, útil na triagem de compostos;
- Blaptica dubia: espécie de barata utilizada para verificar mecanismos de ação e toxicidade celular.
O principal objetivo do grupo é validar protocolos científicos compatíveis com as normas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para que, no futuro, esses testes possam ser incorporados à Farmacopeia Brasileira — compêndio oficial que dita os critérios de qualidade para fármacos e medicamentos no país.
“Com a aprovação do projeto, teremos bolsas para estudantes e um intercâmbio contínuo com o Laboratório de Nanotoxicologia do CNPEM. Vamos formar mão de obra qualificada na criação de protocolos que beneficiarão outros pesquisadores”, celebra Ana Catharina.
Com a entrada dos dois laboratórios na Renama, Alagoas consolida sua posição nas chamadas Novas Metodologias de Abordagem (NAMs), unindo vanguarda tecnológica, rigor científico e responsabilidade bioética.









