Registro inédito sobre alimentação da jararaca-de-Murici aponta caminhos para preservação

Observação registrada pela primeira vez na Mata Atlântica em Alagoas revela novos dados sobre espécie ameaçada
Gabriel afirma que compreender a ecologia de uma espécie, ou seja, sua relação com o habitat, é fundamental para preservá-la (créditos: acervo da pesquisa)

Estudo publicado na Brazilian Journal of Animal and Environmental Research (Revista Brasileira de Pesquisa Animal e Ambiental) apresenta um registro inédito sobre a alimentação da jararaca-de-Murici (Bothrops muriciensis), espécie rara e ameaçada de extinção, restrita à Estação Ecológica de Murici, em Alagoas.

A pesquisa documenta, pela primeira vez, a predação de uma centopeia do gênero Scolopendra por um exemplar juvenil da serpente. A pesquisa amplia o conhecimento científico sobre sua dieta e comportamento alimentar.

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“Desde a descrição da espécie, em 2001, não se tinha informações sobre do que a serpente se alimentava: eram apenas hipóteses, baseadas no padrão alimentar de outras espécies de jararacas do Brasil. Este é o primeiro dado concreto sobre sua dieta. Além disso, observar serpentes se alimentando na natureza é extremamente raro”, explica o autor do trabalho, o biólogo e herpetólogo Gabriel Nascimento da Silva, 27 anos, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Também assinam o artigo os biólogos Tonny Andrey Bichinski Teixeira, Jhenifer Ramalho da Paz e Selma Torquato da Silva.

Do ponto de vista ambiental, o trabalho traz contribuições relevantes. Ao detalhar hábitos alimentares ainda pouco conhecidos, o estudo ajuda a compreender melhor o papel ecológico da espécie e sua posição na cadeia alimentar, informação essencial para o planejamento de ações de conservação.

A observação também ressalta o caráter generalista da dieta das víboras do gênero Bothrops, indicando maior capacidade de adaptação a diferentes condições ambientais.

Jararaca-de-Murici se aproxima da centopeia

“Compreender a ecologia de uma espécie, ou seja, sua relação com o habitat, é fundamental para preservá-la. É preciso conhecer para preservar. Ainda existem muitas lacunas sobre a Bothrops muriciensis, e esse registro é mais uma informação importante para sua história natural, que pode subsidiar estratégias de conservação”, pontua Gabriel Nascimento.

Outro aspecto positivo é o fato de o registro ter sido feito em ambiente natural, algo considerado raro devido à distribuição extremamente limitada da espécie e à dificuldade de observação de seu comportamento.

Esse tipo de evidência contribui com a base de dados sobre a biodiversidade da Mata Atlântica nordestina, uma das regiões mais ricas e, ao mesmo tempo, mais ameaçadas do planeta.

“Serpentes são predadoras e também presas de diversos animais, sendo peças fundamentais no equilíbrio ecológico. Esse novo dado amplia a compreensão sobre a ecologia da espécie e evidencia sua participação nas interações alimentares do habitat. Ao documentar esse tipo de relação, reforça-se o papel da jararaca-de-Murici na manutenção do equilíbrio ambiental, especialmente em áreas restritas e estratégicas como a Estação Ecológica de Murici”, ressalta o pesquisador.

Gabriel: “Ao documentar esse tipo de relação, reforça-se o papel da jararaca-de-Murici na manutenção do equilíbrio ambiental”

Estação de Murici

O estudo também destaca a importância da Estação Ecológica de Murici como área estratégica para a conservação, por abrigar espécies endêmicas e ameaçadas. Ao ampliar o conhecimento sobre a biologia da jararaca-de-Murici, a pesquisa contribui diretamente para orientar políticas públicas e estratégias de preservação, especialmente diante da perda de habitat e da pressão ambiental.

Para Gabriel Nascimento, realizar a pesquisa em Alagoas, especialmente na Estação Ecológica de Murici, é altamente relevante pelo caráter único da área. Inserida no principal remanescente de Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco, a região concentra elevado nível de endemismo e espécies ameaçadas, muitas ainda pouco conhecidas.

“Nesse contexto, investigar a história natural de espécies como a Bothrops muriciensis contribui diretamente para entender as interações ecológicas locais, especialmente em um ambiente fragmentado e pressionado por atividades humanas, como é a Mata Atlântica. Estudos assim fornecem dados essenciais para estratégias de manejo e conservação mais eficazes”, afirma.

O registro

Entre a observação e a publicação do estudo, foram quatro anos de trabalho. O registro ocorreu em novembro de 2022, durante uma expedição em campo.

“Eram quase 21 horas, chovia muito e fazia frio. Já tínhamos visto a serpente mais cedo. Voltamos ao local com outro pesquisador e a encontramos novamente. Segundos depois, ela nos surpreendeu com um bote em uma lacraia. Eu disse na hora: ‘ela vai se alimentar, vamos registrar’. E assim conseguimos documentar o momento”, relembra.

Serpente dá o bote na presa

Veja o vídeo:

Conservação e futuro

O pesquisador destaca que o estudo pode orientar ações práticas de preservação, ao identificar recursos essenciais para a sobrevivência da espécie, como presas e habitat, permitindo proteger não apenas o animal, mas toda a rede ecológica associada.

“Esse tipo de informação direciona ações de manejo na Estação Ecológica de Murici, como proteção de áreas-chave, monitoramento e recuperação ambiental, além de fortalecer políticas públicas e educação ambiental”, afirma.

Gabriel também ressalta a importância de aproximar a população do conhecimento sobre as serpentes, muitas vezes cercadas de medo e desinformação.

Jararaca deglute e finaliza o processo

“O receio em relação às serpentes vem, em grande parte, do desconhecimento. Quando as pessoas entendem seu papel no equilíbrio ambiental, essa visão muda. Além disso, substâncias presentes no veneno de algumas espécies, como as jararacas, já contribuíram para o desenvolvimento de medicamentos importantes, como o captopril, usado no controle da pressão arterial”, destaca.

“Aproximar as pessoas desse conhecimento, por meio da divulgação científica, ajuda a desmistificar esses animais, reduz riscos de acidentes e fortalece o senso de responsabilidade pela conservação. Em regiões como a Estação Ecológica de Murici, isso é essencial para proteger não só a Bothrops muriciensis, mas todo o ecossistema ao redor”, finaliza.

Leia o artigo completo AQUI.

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