A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas terá o projeto de cenografia inspirado no tema desta edição ‘Brasil e África: ligados culturalmente por seus ritos e raízes’.” Assinado pela arquiteta e cenógrafa Mirna Porto Maia, o projeto promete ser um dos carros-chefes do evento, que acontece entre os dias 31 de outubro e 9 de novembro, no Centro de Convenções do Jaraguá, em Maceió.
A proposta é desenhar uma ponte entre passado e futuro, unindo a força da arquitetura tradicional e contemporânea à ancestralidade africana presente em nossa história.
O reitor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Josealdo Tonholo, ressaltou a importância do maior evento literário e cultural do estado referenciar o povo africano em sua totalidade e simbolismo, apresentando à população alagoana sua diversidade cultural.
“A Bienal traz à tona a reflexão sobre como a cultura brasileira se desenvolveu marcada pela escravidão. É preciso conhecer essa história em detalhes para pensar uma reparação real e, sobretudo, para enxergar um futuro de convivência plena em nossa diversidade. Sem conhecimento, não há transformação”, contou.
Para Mirna Porto Maia, o convite para desenvolver a cenografia foi especialmente significativo devido à sua admiração pela África e suas tradições.
“É uma Bienal cheia de axé. Então, é uma responsabilidade gigante, tenho essa paixão pela África. Fiquei me sentindo a mulher mais premiada quando o professor chegou lá e disse: ‘Mirna, você vai fazer a Bienal e o tema é esse’. Eu falei: obrigada, meu Deus”, comemorou Mirna Porto Maia.
Inspirações
Em convergência com o tema, seis países africanos de língua portuguesa serão celebrados nesta edição: Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Foi a partir deles que o projeto cenográfico ganhou forma.
“Como são países diferentes, mas todos com língua portuguesa, vindos da África, e a língua portuguesa atravessou o mar para poder chegar aqui também, a minha intenção foi procurar alguns elementos dentro das características de todos os países que tivessem a ver com a gente”, afirmou.
Durante todo percurso da Bienal serão vistos os elementos que compõem essa cultura; das paredes ao teto, tudo conectará os visitantes ao continente africano.
“Usei elementos que podem ter continuidade depois, de forma contemporânea e ousada: pirâmides em formato de tendas de sol, estampadas com padrões africanos, estruturas de taipa, palha, atalaia e outros materiais”, revelou.
Ela destacou ainda que muitos dos símbolos presentes na cenografia já fazem parte do cotidiano brasileiro, mas de forma discreta, porque, como grande parte da cultura africana, precisaram sobreviver em silêncio para não se perder.
“A Bienal vai mostrar isso por meio de elementos que as pessoas podem até não entender de imediato. Quero, justamente, que perguntem ‘o que significa isso?’, porque haverá totens explicando. Precisamos dar visibilidade a esses símbolos que ficaram no nosso inconsciente coletivo, mas nunca tiveram o devido respeito e destaque”, reforçou.
Ao adentrar nos saberes e características do continente, a arquiteta selecionou cinco elementos que, para ela, foram fundamentais para seu processo criativo.
“Os andrikas, símbolos espirituais que estarão representados no teto da Bienal; O quilombo, que estará na entrada da Bienal, para que o público já tenha contato com a simbologia; A Revolução dos Cravos, que foi a responsável pela libertação de quatro países africanos de língua portuguesa ainda eram colônias de Portugal. A praça de alimentação da Bienal terá cravos gigantes e ombrelones em formato de cravos. Nas paredes, vamos mostrar a história desse movimento. Além disso, quis trazer a arquitetura como elemento inspirador”, explicou a arquiteta.
Baobá
O quinto elemento é o Baobá, árvore símbolo da ancestralidade africana, presente em todos esses países e no Brasil. O baobá é uma árvore forte, resistente, que guarda a maior quantidade de água e é sinônimo de resistência. A arquiteta revelou que para este reservou uma surpresa especial para o dia do evento.
“Sobre o baobá, deixo como surpresa. Não quis mostrar antes para não perder o impacto. Quero que, quando chegarem na Bienal, as pessoas digam: “Uau!” No chão, haverá uma marcação verde e azul de onde vai surgir o baobá, que ficará para a surpresa final”, evidenciou Mirna.
A arquiteta e cenógrafa promete que quem participar da Bienal, não sairá de lá sem perceber a presença do continente africano na formação cultural do Brasil.
“Essa Bienal foi pensada para ser uma viagem simbólica, conectando ancestralidade, resistência, espiritualidade, memória e liberdade, com elementos que unem o passado e o presente, a África e o Brasil”, concluiu.











