Há mais de cinco mil anos, às margens do Rio Nilo, alguém cavou pequenas covas na terra e começou a distribuir sementes. O movimento não era apenas um passatempo: era a tradução da própria vida, do ciclo das cheias que adubavam o solo e da seca que exigia planejamento para colher. Nascia ali o Mancala, um dos jogos de estratégia mais antigos da história humana.
Milênios depois, a cerca de 6 mil quilômetros do Egito antigo e em pleno coração de Maceió, a Oficina de Afrogames e Jogos Africanos & Algo a Mais coloca esse mesmo jogo de volta à mesa, mas desta vez com outra proposta: ensinar aos jovens a cultura e os jogos de matriz negra, quebrar estereótipos e promover o aquilombamento de estudantes da rede pública estadual.
O projeto une o mundo antigo ao contemporâneo para resgatar raízes negras. A iniciativa é idealizada pelos pesquisadores e afroempreendedores Fabíola Santos e Marcello Toledo, tendo como objetivo transformar partidas de tabuleiro em espaços vivos de aprendizado.
A oficina se destaca por um acervo raro e intencional, dividido em dois pilares: a sabedoria milenar africana e a afirmação dos afrogames modernos.

O primeiro pilar traz o resgate de jogos tradicionais que sofreram apagamento histórico no Brasil. Na ação, os estudantes experimentam o Mancala (e sua matemática da colheita e semeadura), o Shisima, o Tsoro e o Gulugufe (o tradicional Jogo da Borboleta), que mostram na prática o rigor lógico e o raciocínio sofisticado dos povos ancestrais africanos.
Já o segundo pilar foca em produções contemporâneas de editoras independentes, como a paulistana Maloca Games, que colocam a estética e a vivência negra no centro da narrativa. Na oficina, entram em cena os títulos Axé: A Energia dos Orixás, que traz a cosmovisão de matriz africana como elemento de respeito e conexão cultural, e Meu Primeiro Black Power, jogo estruturado em mecânicas de puzzle, reconhecimento de padrões e coleção de componentes com símbolos que remetem à africanidade, tratando o cabelo crespo como signo de beleza e autoridade.

“Quando um jovem abre a caixa de um jogo e encontra peças com traços parecidos com os seus, falando de poder no cabelo black ou da cosmovisão ancestral, algo muda por dentro. Ele deixa de ser coadjuvante da história para ser o estrategista principal”, destaca o educador Marcello Toledo.
Para ensinar os estudantes a entenderem os jogos, Marcello criou um canal no youtube para explicá-los.
Do segundo quilombo urbano mais antigo do país para a sala de aula
A oficina nasceu em 2024, durante o aniversário de 110 anos da Comunidade Maloca, em Aracaju (SE) — considerado o segundo quilombo urbano mais antigo do Brasil. A vivência comunitária, batizada de “Maloca na Maloca”, ganhou tanta força que se expandiu para projetos de extensão na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e passou a circular por escolas públicas alagoanas, como a Mário Vergel, no Trapiche.
Na prática pedagógica, a iniciativa dá vida e dinamismo à Lei Federal nº 10.639/2003, que determina a inclusão da história e cultura afro-brasileira nas escolas, transformando conceitos teóricos em uma experiência tátil, coletiva e afetiva.
Próxima rodada: imersão na Escola Estadual Princesa Isabel
Nesta sexta-feira, 21 de agosto de 2026, o projeto realiza sua 2ª edição no Complexo Educacional Cepa, atendendo turmas de ensino médio nos turnos matutino e vespertino na Escola Estadual Princesa Isabel.
Na ocasião será trabalhado os jogos africanos Shisima, Tsoro, Gulugufe (jogo da borboleta) e Mancala, e os Afrogames Axé e Meu primeiro Black Power.
A iniciativa conta com o apoio do Governo de Alagoas, por meio da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa, viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Acompanhe a oficina pelo Instagram: @marcellaojogosealgomais







