ESPECIAL

PASSARINHAR É PRECISO

Da Caatinga à Mata Atlântica, o turismo de observação de aves ganha asas em Alagoas e revela um voo de oportunidades para a conservação, a educação ambiental e o desenvolvimento sustentável

Imagem: Thiago Sampaio

Texto: Severino Carvalho

O turismo de observação de aves está nas alturas. Também conhecida como aviturismo, a atividade integra um movimento de crescente valorização do Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS) e se projeta nos mercados nacional e internacional. Em Alagoas, a modalidade também ganha campo num estado cheio de vida em fauna e flora, aliada a práticas sustentáveis.

Em âmbito nacional, o Ministério do Turismo (MTur) já contratou, por meio de edital, consultoria para o mapeamento da atividade no país.

Em Alagoas, a Secretaria de Estado do Turismo (Setur) informa que também iniciou um diagnóstico das potencialidades do produto, que já existe no mercado, com o objetivo de estruturá-lo.

Nesta reportagem especial, o Alagoas Notícia Boa (ALNB) conversou com observadores de aves, guias turísticos, representantes de órgãos e de organizações ambientais, e até “passarinhou” numa reserva de Mata Atlântica para mostrar as potencialidades, as boas práticas e projetar o futuro do aviturismo, atividade que favorece a ciência cidadã, a conservação da biodiversidade, a educação ambiental e a geração de renda, por meio do turismo de base comunitária.

O potencial do Brasil

A bióloga Cecília Licarião é consultora do MTur no Projeto de Diagnóstico do Turismo de Observação de Aves no Brasil. Presidente do Instituto Retriz, ela possui mestrado em Ecologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Ao falar do potencial do Brasil para o aviturismo, Cecília cita que o país é o mais rico em biodiversidade do planeta, e um dos mais diversos em espécies de aves com 1.971 registradas — muitas delas endêmicas, raras ou ameaçadas.

“Temos uma combinação única de biomas diversos, áreas protegidas, cultura comunitária e atrativos naturais que tornam o país um destino altamente promissor para o turismo de observação de aves. Nossas principais valências são: diversidade biológica, riqueza de paisagens, potencial de interiorização do turismo e crescimento de iniciativas locais comprometidas com a conservação”, pontua. 

Cecília Licarião é consultora do MTur no Projeto de Diagnóstico do Turismo de Observação de Aves no Brasil (foto: Instituto Retriz)

A bióloga foi selecionada pelo MTur, por meio de edital, para atuar como consultora individual na elaboração de um diagnóstico nacional sobre o turismo de observação de aves no Brasil.

O projeto está em fase inicial, com a entrega do plano de trabalho, cronograma, referencial teórico e definição da metodologia. Nos próximos meses, será feito o mapeamento em campo com a aplicação de formulários, entrevistas com representantes do setor público, privado, terceiro setor e de observadores de aves.

De acordo com Cecília, a etapa final será a entrega de um livro com o mapeamento dos produtos de turismo de observação de aves no país, além da consolidação das informações e a proposição de diretrizes para políticas públicas. Ela afirma que o diagnóstico é uma ferramenta estratégica para integrar a conservação e o desenvolvimento sustentável.

“Do ponto de vista ecológico, ele evidencia a importância da biodiversidade como ativo para o turismo e como elemento central na conservação de espécies e habitats. Já do ponto de vista econômico, mostra o potencial do turismo de natureza como uma atividade de baixo impacto, geradora de renda e de inclusão social, especialmente em áreas protegidas e comunidades locais”, avalia.

“O funcionamento está relacionado a termos um mapeamento de eventos, levantamento de roteiros, análise de políticas públicas e boas práticas. Isso vai nortear as políticas públicas do setor no país. O objetivo é propor caminhos para ordenar, fomentar e qualificar o segmento em nível nacional”, acrescenta.

O potencial de Alagoas

Alagoas tem atraído um número cada vez maior de observadores de aves procedentes de várias partes do país e do mundo, encantados com a rica fauna alagoana que habita os remanescentes de Mata Atlântica, a Caatinga e as zonas úmidas que integram o ecossistema costeiro-marinho, além do Baixo São Francisco.

O gestor ambiental Clarindo Silva, 38 anos, atua como guia turístico de observação de aves em Alagoas desde 2019. Faz incursões a partir de R$ 350 em Maceió ou em localidades próximas da capital.

Ele revela que tem recebido turistas principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e do Espírito Santo, interessados em observar as aves que povoam os biomas alagoanos. Também recebe clientes da Argentina, Chile, Uruguai, Estados Unidos e Inglaterra.

Gestor ambiental, Clarindo Silva (centro) atua como guia turístico de observação de aves em Alagoas desde 2019 (foto: Thiago Sampaio)

“Atualmente, a observação de aves tem um crescimento extraordinário no Brasil com uma relevância muito bacana no Sudeste. E agora está aumentando aqui em Alagoas, onde as pessoas vêm procuram muito o nosso Centro de Endemismo, o nosso CEP, que tem uma distribuição bacana de aves endêmicas, aves raras”, aponta Clarindo.

O CEP a que se refere Clarindo é o Centro de Endemismo Pernambuco. É parte da Floresta Atlântica ao norte do rio São Francisco, território de espécies endêmicas de diversos grupos biológicos, a exemplo das aves, que só ocorrem nesta área. A região biogeográfica compreende os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Há um ano e meio em Alagoas, o biólogo argentino Sebastian Santiago desembarcou no estado atraído pelo amor. Casou-se com uma alagoana, também bióloga, e apaixonou-se pela terra onde há lagoas, rios e mares.

“Alagoas é uma região incrível para quem é da Biologia, porque aqui tem não só a Mata Atlântica, mas também a Caatinga, os recifes de corais, as praias. Então, para quem gosta da natureza, é um local incrível”, exaltou.

Setur trabalha para estruturar atividade em Alagoas

A secretária de Estado do Turismo, Bárbara Braga, enxerga no mapeamento do turismo de observação de aves no país, promovido pelo MTur, uma grande oportunidade para a inserção do Destino Alagoas no catálogo nacional da atividade.

Internamente, ela revela que a pasta tem trabalhado para fomentar e estruturar em Alagoas o birdwatching, como é conhecido o turismo de observação de aves no mundo.

“Não à toa trabalhamos o slogan ‘Alagoas: vários destinos em um único lugar, o ano todo’. Temos um Destino com vocação natural para o turismo, rico, diverso, com muitos produtos e atrativos já consolidados, mas também com potencial gigante para o desenvolvimento e estruturação de novos. E quando o assunto é turismo de observação de aves, Alagoas não fica para trás”, afirma a secretária.

Bárbara Braga: “Quando o assunto é turismo de observação de aves, Alagoas não fica para trás” (foto: Pei Fon / Agência Alagoas)

Ela destaca que, por meio dos Termos de Fomento implementados junto às Instâncias de Governança em Alagoas, a Secretaria de Estado do Turismo (Setur) tem efetuado o repasse de recursos para o diagnóstico e identificação das potencialidades do aviturismo nas regiões turísticas alagoanas.

Exemplo disso, cita, é a região turística “Caminhos das Águas”, composta por 11 municípios. Segundo ela, estão previstos no plano de ação a estruturação e o fortalecimento do turismo de observação de aves.

“Não temos apenas o potencial, temos o produto e vamos, cada vez mais, estruturá-lo para as prateleiras do mercado nacional e internacional. Importante mencionar que o aviturismo se comunica diretamente com destinos sustentáveis, valorização da cultura e conservação da biodiversidade”, destaca a secretária.

Confira abaixo, no infográfico, as ocorrências de espécies em municípios alagoanos:

Ilustração: ALNB

Uma manhã de passarinhada no Zooparque Pedro Nardelli

Zooparque Pedro Nardelli, Rio Largo, região Metropolitana de Maceió. Manhã de um sábado invernoso de julho. O passarinho pousa na copa da árvore, balança as asas, sassarica. Depois solta a cantoria.

Atento, Ronaldo Alves, 18 anos, aprecia a melodia e logo identifica a pequena ave pela vocalização. É o chorozinho-de-asa-vermelha-do-norte (Herpsilochmus frater).  O jovem observador confere o exemplar com o auxílio de binóculo. Depois aponta a câmera fotográfica e faz o registro.

Chorozinho-de-asa-vermelha-do-norte clicado pelo repórter fotográfico Thiago Sampaio

“O chorozinho-de-asa-vermelha-do-norte é uma ave de pequeno porte da família Thamnophilidae, e existem algumas populações que residem aqui no Nordeste brasileiro, principalmente na Mata Atlântica. Ela se alimenta principalmente de insetos, habita a copa das árvores e raramente desce para a parte mais baixa da floresta”, explica Ronaldo.

Apesar da pouca idade, ele fala com propriedade: já identificou quase 140 espécies de aves desde os 15 anos, quando começou a observá-las no quintal da casa dele, no bairro ABC, em Fernão Velho, Maceió.

Ronaldo já identificou quase 140 espécies de aves desde os 15 anos, quando começou a observá-las no quintal de casa (foto: Thiago Sampaio)

Ronaldo e outros cinco amigos integram o Grupo Passarinheiros de Alagoas, que reúne mais de 50 integrantes no aplicativo de mensagens Whatsapp, por onde trocam informações e marcam atividades.

No sábado 5 de julho, eles participaram de mais uma “passarinhada”, como são conhecidas as saídas para a observação de aves. Apesar do dia nublado, não chovia. As condições climáticas foram checadas com antecedência.

O ALNB acompanhou essa experiência de ciência cidadã, educação ambiental e de lazer e bem-estar, no contato direto com a natureza. Quem guia o grupo é o experiente observador de aves Eduardo Vieira, 69 anos, contador aposentado.

Ele carrega a tiracolo uma caixinha de som, dessas que se conectam ao celular via Bluetooth. Para atrair as aves, quando elas não se aproximam espontaneamente, Vieira recorre à tecnologia e reproduz o canto de determinada espécie, que já sabe existir naquela região.

Vieira recorre à tecnologia e reproduz o canto para atrair as aves territorialistas (foto: Thiago Sampaio)

“Nós utilizamos o playback porque eles (machos) são aves territorialistas. Quando percebemos que naquela região há determinada espécie de aves, a gente coloca o playback para chamá-la. Raramente uma espécie não vem pelo playback”, revela.

“E como são territorialistas, na ideia deles tem algum da mesma espécie invadindo o território. Então ele vem para defender a área e a gente faz a fotografia”, explica Vieira.  

A tecnologia também auxilia o observador a identificar as espécies. Aplicativos como o Merlin Bird ID faz essa tarefa, utilizando tanto informações visuais quanto sonoras.

“Se você tiver uma foto da ave, você coloca e o aplicativo identifica qual é a ave, qual é a espécie; tanto pelo canto como pelo visual”, revela Vieira.

A popularização das máquinas fotográficas digitais também impulsionou a atividade e, de certa maneira, reduziu os custos com equipamentos.

“A gente faz a foto ou pode fazer a filmagem também. Tem observador de aves, aqueles mais antigos, que não fotografa. O japonês, por exemplo, anda com um caderninho, um lápis e um binóculo. Ele vê a ave e toma nota: só quer observar mesmo, nenhum usa máquina fotográfica. Já os norte-americanos, os brasileiros, é tudo na fotografia”, conta.

O farmacêutico e professor Jaim Simões de Oliveira, 50 anos, começou a se interessar por aves quando criança, e a fotografar a partir de 2007, época em que morava nos Estados Unidos.

“Comprei minha primeira câmera, uma super zoom, e comecei a observar aves, a pesquisar a respeito e a estudar fotografia também. Eu sou gaúcho de Porto Alegre. Voltei para o Brasil no início de 2011 e, desde então, nunca mais parei. É um hobby que tenho”, define Jaim.

Jaim começou a se interessar por aves quando criança, e a fotografar a partir de 2007, época em que morava nos Estados Unidos (foto: Thiago Sampaio)

Além do Zooparque Pedro Nardelli, em Rio Largo, ele costuma passarinhar no Parque Municipal de Maceió, em Bebedouro. Jaim faz um apelo para que os remanescentes de Mata Atlântica sejam preservados e que as aves, mantidas na natureza, longe do aprisionamento das gaiolas.

“Temos um potencial muito grande para a observação de aves. No entanto, temos que preservar as áreas que temos, como, por exemplo, o Parque Municipal de Maceió. Tem muitas aves lá que estão em extinção e são de fácil observação”, defende.

“É preciso também ensinar a população a observar aves. Em todo o Brasil – alguns estados mais, outros menos -, é uma prática cultural engaiolar os pássaros. E não é necessário. Você consegue fazer comedouros naturais e atrair beija-flores até mesmo para a varanda de apartamentos. Então não é necessário engaiolar as aves. Esse, eu acho, é o recado principal”, sustenta Jaim.

Aos que desejam passarinhar, o guia turístico de observação de aves Clarindo Silva deixa uma sugestão: “Muita gente se bloqueia muito por conta de não ter um equipamento específico, mas a observação de aves constitui em estar num ambiente silencioso, ter essa imersão dentro de uma mata para que você possa ouvir, visualizar. E se você realmente gostar, aí pode investir no equipamento. Mas pode iniciar com binóculo e depois comprar uma câmera fotográfica”.

Confira abaixo a videorreportagem sobre a passarinhada no Zooparque Pedro Nardelli:

Observadores de aves e a ciência cidadã

A bióloga Cecília Licarião destaca que a observação de aves é uma das maiores portas de entrada para a ciência cidadã no Brasil. Plataformas como o eBird e o WikiAves reúnem milhões de registros gerados por cidadãos que ajudam a monitorar espécies, detectar mudanças climáticas e informar políticas de conservação.

“Muitos registros de novas espécies para regiões, migrações atípicas e mesmo de espécies ameaçadas vêm justamente de observadores amadores com olhos atentos e paixão pela natureza. E este ano o eBird anunciou 2 bilhões de registros de aves no mundo. Isso tem muita força, gera dados e possibilita projeções em uma velocidade que nunca existiu”, ressalta.

Eduardo Vieira é um desses colaboradores. “Esse trabalho de ciência cidadã somos nós que fazemos. Se determinada ave observada por anos seguidos de repente desaparece de uma região, então a ciência vai perceber que pode ter ocorrido algum desequilíbrio, um desmatamento, caça predatória, mudança de clima. Então há um compartilhamento de dados”, reforça o observador.

Eduardo Vieira é um dos colaboradores da ciência cidadã (foto: Thiago Sampaio)

Murici é refúgio para 15 espécies de aves ameaçadas de extinção

Maior Área de Proteção Ambiental terrestre de Alagoas, a APA de Murici integra o Centro de Endemismo Pernambuco (CEP). É refúgio para 15 espécies de aves ameaçadas de extinção.

Criada há 28 anos, a Unidade de Conservação (UC) Estadual, administrada pelo Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), possui área de 132.833 hectares (1.328,33 km²), espalhados por 10 municípios: Murici, União dos Palmares, São José da Laje, Ibateguara, Colônia Leopoldina, Novo Lino, Joaquim Gomes, Messias, Branquinha e Flexeiras.

Ilustração: ALNB

A Área de Proteção Ambiental funciona como uma zona de amortecimento para a Estação Ecológica (ESEC) Murici, que está dentro dos limites da APA. Já a ESEC é uma UC federal de proteção integral, criada em 2001 e gerenciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A SAVE Brasil, Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), atua nas duas unidades de conservação através do Projeto Mata Atlântica do Nordeste com o objetivo central de conservação das espécies de aves ameaçadas de extinção. A iniciativa é coordenada pela engenheira ambiental Aline Sales Bezerra, mestra em Conservação da Fauna.

De acordo com ela, o projeto prevê o fortalecimento da gestão das unidades de conservação com o apoio à governança, participando no Conselho das UCs, apoio para educação ambiental aplicada na observação das aves, restauração para formação de corredores ecológicos e estratégias de conservação da choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi).

Choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi) fotografada por Sérgio Leal na Reserva de Murici

“Murici é uma das áreas prioritárias do Projeto Mata Atlântica do Nordeste da SAVE Brasil, identificada pela BirdLife International como uma IBA/KBA (Área Importante para a Conservação das Aves e da Biodiversidade) e um sítio AZE (Aliança para Extinção Zero) que reforçam a importância deste território como um dos últimos refúgios para 17 espécies de aves ameaçadas de extinção em toda a região do Centro de Endemismo entre Pernambuco e Alagoas”, revela Aline.

Devido à situação crítica de conservação da choquinha-de-alagoas, a SAVE Brasil realizou dois workshops com o apoio de parceiros para discutir um plano de ação de emergência para esta espécie.

O último, em 2019, foi organizado em parceria com o Parque das Aves (zoológico privado) e facilitado pelo Grupo Especialista em Planeamento de Conservação (da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza).

Aline Sales coordenada o Projeto Mata Atlântica do Nordeste (foto: SAVE Brasil)

De acordo com Aline, os workshops resultaram num plano de ação para a conservação da espécie a longo prazo, e as estratégias têm sido implementadas desde então.

“No total, de 2020 a março de 2025, a nossa equipe passou mais de 450 dias na ESEC Murici monitorando a espécie e executando ações de manejo, como, por exemplo, a proteção de ninhos. Os levantamentos populacionais mais recentes (2024/2025) contabilizaram apenas 8 indivíduos adultos (4 casais) e 3 filhotes – todos na Estação Ecológica de Murici”, revela.

A SAVE Brasil também trabalha para garantir a efetiva implementação da Estação Ecológica de Murici, que é resultado de uma ampla articulação entre organizações da sociedade civil, instituições públicas e atores internacionais.

“A SAVE Brasil atuou de forma estratégica, integrando esforços por meio do Pacto Murici, formalizado em 2004, que reuniu oito das maiores entidades ambientalistas do país com o objetivo de proteger um dos últimos remanescentes da Mata Atlântica no Nordeste”, recorda Aline.

Potencialidades e cuidados

Segundo a plataforma de ciência cidadã Wikiaves, já foram registradas 504 espécies de aves em Alagoas, o que, na avaliação da engenheira ambiental, demonstra o grande potencial para o desenvolvimento do turismo de observação de aves no estado, que possui diversidade de ambientes como área costeira, fragmentos de Floresta Atlântica e Caatinga.

“O ornitólogo e guia de observação de aves Arthur Andrade, que atua há cerca de 5 anos com o turismo de avifauna na região, reforça que Alagoas vem se consolidando como um destino procurado cada vez mais para a atividade no Brasil, atraindo desde observadores brasileiros a estrangeiros que buscam observar espécies raras como a corujinha-de-alagoas e a choquinha-de-alagoas; as coloridas como a jandaia-verdadeira e udu-de-coroa-azul, além das espécies endêmicas e ameaçadas como o beija-flor-costa-violetas e o saíra-pintor”, cita Aline.

Ela ressalta que a observação de aves é uma atividade imersiva e que possibilita a experiência de acompanhar os comportamentos das aves, mas a prática deve ser realizada com cuidados para não perturbar os indivíduos e causar danos.

O gerente das Unidades de Conservação do IMA, Alex Nazário, também alerta para os cuidados.

Nazário: “O IMA recomenda seguir boas práticas responsáveis” (foto: Ascom IMA)

“O IMA recomenda seguir boas práticas responsáveis, entre elas: manter distância segura e evitar perturbar ninhos ou cantos naturais; não alimentar ou tocar as aves; usar equipamentos como binóculos silenciosos e redesenhar trilhas sem interferir no habitat; além de denunciar crimes ambientais ou fauna em cativeiro irregular por meio do app IMA Denuncie, disponível para os sistemas Android e iOS”, enumera Nazário.

Cuidados ao passarinhar:

  • Manter uma distância que não perturbe o animal
  • Manter o silêncio
  • Não interferir no habitat, principalmente intervenções para criar cenários fotográficos
  • Não se aproximar ou permanecer próximos aos ninhos
  • Expressamente proibido manejar os ninhos ou filhotes para garantir fotos
  • Usar o recurso playback (gravação da vocalização da ave) com parcimônia para não perturbar o indivíduo

Passarinhar Palmares

Em abril deste ano, o IMA, a Save Brasil, a Fundação Cultural Palmares e órgãos parceiros promoveram o #VemPassarinharPalmares. O evento foi realizado no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em União dos Palmares.

O objetivo foi proporcionar uma vivência de observação de aves, além de estimular a conscientização sobre a biodiversidade da região e destacar a importância histórica e cultural do local.

Experiência de ciência cidadã, turismo e educação ambiental foi realizada no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em União (foto: Mary Landim / Ascom IMA)

“A passarinhada na Serra da Barriga teve caráter experimental e simbólico, com o objetivo de sensibilizar a comunidade e os visitantes sobre a importância do aviturismo, além de engajar parceiros locais em futuras atividades de educação e monitoramento da fauna. O IMA planeja dar continuidade a ações semelhantes, com a perspectiva de consolidar um calendário de eventos ambientais na área”, anunciou.

Ordenamento deve seguir a ciência e o planejamento participativo

A bióloga Cecília Licarião defende o ordenamento da atividade de observação de aves no Brasil com base na ciência, no planejamento participativo e no monitoramento constante.

Segundo ela, isso inclui: definir limites de carga turística, capacitar condutores locais, promover boas práticas e certificações, além de estabelecer políticas públicas que incentivem a conservação como eixo do desenvolvimento. 

“A observação de aves é uma das formas mais sustentáveis de turismo: ela valoriza o silêncio, a presença responsável e a conexão com os ecossistemas. O desafio é garantir que esses princípios não se percam com a expansão da demanda”, ponderou Cecília, consultora do MTur no Projeto de Diagnóstico do Turismo de Observação de Aves no Brasil.

“A proposta desse edital do MTur é justamente direcionar esse ordenamento. Um dos produtos será o ‘Guia de Boas Práticas’, que vai abordar justamente essas perspectivas de cuidado e ética porque, como tudo que se produz em massa, há consequências graves se não houver ordenamento”, alerta a especialista. 

Ela também considera que os Estados brasileiros são peças-chave no levantamento e na implementação de políticas voltadas à atividade.

“Vamos precisar de representantes de cada Estado que ajudem a tornar esse mapeamento o mais participativo possível. A ideia é que esses documentos, que vamos gerar este ano, realmente sejam representativos do cenário do turismo de observação de aves que existe hoje no país. Os Estados serão indispensáveis nesse processo”, afirma.

Um dos mais experientes observadores de aves em Alagoas, Sérgio Leal diz que o mapeamento é bastante oportuno.

Sérgio Leal (D) durante passarinhada em Murici (foto: Eduardo Florence)

“A gente tá num momento em que a observação de aves vem crescendo no mundo todo. E alguns países já desenvolvem projetos bem avançados, enquanto que o Brasil ainda está muito atrás em relação à potencialidade que temos”, avalia Leal.

“Alagoas é um exemplo dessa riqueza natural. Além de Murici, temos a Reserva Biológica de Pedra Talhada, em Quebrangulo, onde há espécies interessantes de aves, algumas endêmicas da região e também ameaçadas, a exemplo do anumará e o saíra-pintor”, cita Leal.

Observação de aves: histórico

A observação de aves teve início no século XVIII ligada à ornitologia (ramo da zoologia que estuda as aves). A atividade floresceu durante o Iluminismo e com as expedições científicas europeias. Nesse período, ainda estava associada à coleta de espécimes mortos para estudo.

O artista, naturalista e ornitólogo franco-americano John James Audubon (1785-1851) foi um dos que popularizaram o registro artístico e científico das aves, abrindo caminho para uma contemplação menos predatória.

Destacou-se por suas ilustrações realistas e precisas, que representavam as aves em seus habitats naturais e em tamanho real. 

Sua obra mais famosa é The Birds of America. Publicado entre 1827 e 1839, o livro traz 435 placas gravadas, com ilustrações de 1.065 aves de diversas espécies, em tamanho natural e em poses realistas, informa a Enciclopédia Britannica.

Estima-se que mais de 80 milhões de pessoas pratiquem a observação de aves regularmente no mundo (foto: Thiago Sampaio)

A transição para observação recreativa se deu no final do século XIX e início do século XX com a invenção e popularização de binóculos e das máquinas fotográficas portáteis, que permitiram a contemplação e os registros das aves sem capturá-las. Foi quando surgiram os primeiros clubes de observadores de aves na Europa e nos Estados Unidos.

O birdwatching, como é conhecida a observação de aves no mundo, teve sua consolidação como turismo a partir da segunda metade do século XX, com o aumento das viagens internacionais no pós-guerra, o crescimento do movimento ambientalista e das visitas aos parques e reservas.

Do ponto de vista econômico, o turismo de observação de aves se consolidou como atividade lucrativa dentro do ecoturismo. Atrai tanto turistas domésticos quanto internacionais, com baixo impacto ambiental e alto valor agregado para comunidades locais.

Estima-se que mais de 80 milhões de pessoas pratiquem a observação de aves regularmente no mundo, segundo dados de organizações como o US Fish & Wildlife Service e o BirdLife International.

O Brasil possui mais de 1.900 aves nacionais catalogadas. Do universo de aves nacionais, mais de 1.290 ocorrem na Amazônia e 891 são abrigadas na Mata Atlântica, sendo 213 espécies endêmicas, ou seja, vivem exclusivamente nesse bioma.

O dado preocupante é que 120 espécies estão em risco de extinção na Mata Atlântica, sobretudo devido à destruição de seus habitats naturais, caça ilegal e tráfico de animais. Os dados são do Parque das Aves.

Eu passarinho: conheça a história de Pedro Têia

De caçador a biólogo; de passarinheiro a observador de aves na natureza. Essa é a história de transformação de Pedro Pereira Rodrigues, 49 anos, o “Pedro Têia”, morador de Pão de Açúcar, no Baixo São Francisco, Sertão de Alagoas.

Filho e neto de caçadores, ele cresceu em meio à cultura da caça de subsistência. Cultura e necessidade.

“Meus pais e avós tiravam o sustento da roça e tinham que caçar para trazer a mistura pra dentro de casa. Eu cresci dentro dessa cultura e com o passar do tempo, mudei meus conceitos e me tornei um ambientalista, com a intenção de tentar recuperar todo o prejuízo que tinha dado à natureza”, confessa Pedro.

Pedro Têia: “Eu cresci dentro dessa cultura e com o passar do tempo, mudei meus conceitos e me tornei um ambientalista” (foto: arquivo pessoal / Pedro Têia)

O menino sertanejo sempre foi fascinado pelo canto das aves, desde quando esse canto era um lamento de dor aprisionado.

“Culturalmente, eu cresci em uma família que criava aves silvestres, como se fosse normal, e sempre tive fascínio pelos cantos delas. Andava no mato cheio de curiosidade em saber que ave era aquela, quando escutava o garrinchão-de-bico-grande, o pitiguari e outras aves. Sempre que eu jogava bola durante a tarde, o garrinchão-de-bico-grande cantava e eu ficava curioso pra saber que ave era”, recorda.

A transformação de Pedro veio pela educação. Na escola, tomou gosto pelos assuntos e trabalhos relacionados ao meio ambiente.

“Aquilo me fez repensar sobre tudo de errado que eu fazia, já que além de criar pássaros, também era caçador. Daí comecei a tentar gravar os cantos das aves no mato e, aos poucos, deixei de caçar e criar aves, me dedicando apenas a observá-las e a registrá-las na natureza”, revelou.

Após concluir o segundo grau, Pedro cursou Biologia (Licenciatura) e tornou-se um ambientalista. Trabalhou como guia turístico de observação de aves, mas hoje dedica-se a produzir conteúdo digital sobre meio ambiente nas redes sociais. Mantém o canal no YouTube denominado “Animais Selvagens do Pedro Têia”, com mais de 230 mil inscritos.

“Eu atuei por cinco anos como guia de observadores de aves, porém tive que me dedicar ao canal do YouTube e fiquei sem tempo de guiar turistas. Mas o turismo de observação de aves sempre traz renda para a comunidade, já que o turista vem, gasta com estadia, alimentação e, muitas vezes, com locomoção, além do pagamento pelo serviço aos guias”, relatou.

Pedro comprou um terreno e criou uma reserva com a finalidade de promover a educação ambiental entre estudantes. O lugar foi batizado de “Reserva Ecológica e Educacional Refúgio dos Mocós”.

Pedro promove a educação ambiental no Refúgio dos Mocós (foto: Pedro Têia)

O mocó (Kerodon rupestris) é um roedor de porte médio, adaptado à vida em áreas rochosas da Caatinga. O animal se alimenta de folhas, frutos e sementes, e é conhecido por construir tocas em locais protegidos, entre fendas de rochas.

A história de Pedro Têia nos faz refletir sobre o “Poeminho do Contra”, de Mário Quintana. Mesmo diante de todas as adversidades que “atravancam” a vida do sertanejo, ele segue em frente como um passarinho em voo evolutivo, desvencilhando dos obstáculos, na aridez da Caatinga.

“Eu criei uma frase que sempre uso no canal: ‘Conhecer para preservar, preservar para sempre ter’. Em resumo, essa frase tem muito a ver com minha vida como biólogo ambientalista, porque antes eu caçava, prendia aves em gaiolas e até capturava no mato, mas, a partir do momento que comecei a estudar e a conhecer como funciona o ciclo natural de interação entre nós e a natureza, passei a entender que só preservando poderemos dar continuidade às espécies”, concluiu.

Ilustração: ALNB

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Publicado em 14 de agosto de 2025.

Reportagem:

Produção, texto e edição: Severino Carvalho

Fotos:

Thiago Sampaio, Pei Fon (Agência Alagoas), Sérgio Leal (cortesia), Genivaldo Albuquerque (cortesia), Sebastian Martins (cortesia), Eduardo Vieira (cortesia), Albino Paiva (cortesia), Dermeval Filho (cortesia), Letícia Sena (cortesia), Ronaldo Alves (cortesia), Alenilson Rodrigues (cortesia), Mary Landim / Ascom IMA, Eduardo Florence e Pedro Têia.

Vídeo:

Roteiro, captação de imagens e entrevistas: Severino Carvalho

Edição de vídeo e legendas: Marina Sales

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