“Ler é um dos meios de saber se a gente existe”. A frase da escritora Clarice Lispector traduz, com precisão, a trajetória de uma policial militar alagoana que encontrou nos livros não apenas refúgio, mas um novo sentido para a própria vida.
Natural de Palmeira dos Índios, a sargento Janaína Moura soma 16 anos de serviços à Polícia Militar de Alagoas (PMAL). Mas foi muito antes da farda que nasceu sua conexão com a leitura. Ainda criança, acompanhada pelo pai e por uma das irmãs, frequentava sebos, onde passava horas folheando gibis sentada em pequenos bancos entre as estantes.
Com o incentivo do pai, ela aprendeu que cada livro, mesmo já manuseado, carrega novas possibilidades. Desde então, atravessou diferentes fases da vida acompanhada por centenas de histórias.
“De maneira geral, tenho no romance o meu gênero de conforto. Porém, sempre busco explorar novas possibilidades e estilos de escrita. Cada livro representa um momento importante. Um exemplo é a obra ‘A Marca de uma Lágrima’ que, embora eu tenha lido há muito tempo, ocupa um espaço especial em minha memória por marcar a transição das leituras de infância para a adolescência”, destacou.
Com o tempo, Janaína sentiu que precisava ir além da leitura individual. Há dois anos, criou um perfil nas redes sociais para compartilhar experiências literárias, iniciativa que se transformaria no embrião de um projeto maior.
“Mesmo que o conteúdo linguístico seja o mesmo, cada pessoa tem sua própria interpretação dos fatos narrados. Como meu ciclo imediato de amigos não costumava ler com a mesma frequência que eu, resolvi criar um perfil nas redes sociais e participar de encontros online. Em 2024, tomei coragem para formar meu próprio clube. Embora já tivesse frequentado outros em Maceió, sempre tive o sonho de organizar um”, relembrou.
Assim nasceu o Clube Próxima Página, aberto a todos os interessados. Os encontros presenciais acontecem a cada dois meses, com planejamento definido com antecedência para facilitar a rotina dos participantes.
“A escolha da lista é subjetiva e depende da temática que queremos abordar. Eu monto um cronograma anual; para 2026, já selecionei seis livros. Para que todos mantenham o mesmo ritmo, criei um cronograma semanal para que, no dia do encontro, todos tenham finalizado a obra”, explicou.
Os livros como refúgio e força
A leitura se tornou essencial em um dos momentos mais delicados da vida da sargento. Em 2025, Janaína foi diagnosticada com câncer, e encontrou nas páginas dos livros e nos encontros do clube a força para enfrentar o tratamento.
“Os livros foram meus maiores companheiros entre o diagnóstico e o tratamento. As leituras me deram ânimo e coragem para enfrentar as sessões de quimioterapia e radioterapia. O tratamento nos deixa muito debilitados, e a rotina do Próxima Página me incentivava a reagir contra aquele quadro de fragilidade”, contou.

A prática também trouxe mudanças concretas no dia a dia.
“A leitura é, sem dúvida, uma ferramenta de mudança. Ajudou-me a ter mais disciplina e me afastou das telas. Mesmo de folga, busco evitar as redes sociais para focar nos livros”, acrescentou.
Lotada na Academia de Polícia Militar Arnon de Mello, Janaína também leva o hábito da leitura para dentro do ambiente profissional. Com colegas de farda, promove discussões sobre obras que abordam temas ligados à segurança pública.
“Os livros são um universo onde todos os assuntos podem ser discutidos, inclusive a atividade policial. Sempre que possível, gosto de trocar experiências com meus companheiros de farda sobre segurança pública. Recentemente, debatemos a temática explorada no livro ‘O Avesso da Pele’. Com isso, alguns militares já passaram a frequentar o clube”, destacou.
Novos capítulos à vista
Agora, além de fortalecer o clube e incentivar ainda mais pessoas a ler, Janaína sonha em escrever a própria história, literalmente.
“Eu tinha o hábito de escrever poemas quando era mais nova, mas isso ficou adormecido por um tempo. Para o futuro, quem sabe eu não possa lançar um romance que conte parte da trajetória que vivi. Para o primeiro capítulo, já tenho até um título: ‘Eu venci’”, planejou.









