Cultivar flores de clima temperado em pleno solo alagoano já deixou de ser um teste e virou realidade rentável no interior do Estado. Na Zona da Mata, o Projeto de Plantas e Flores Ornamentais Temperadas reuniu agricultores familiares de Viçosa, Atalaia e Chã Preta em um intercâmbio de campo que mostrou como inovação, afeto e técnica estão abrindo uma nova fronteira econômica para quem vive da terra.
A iniciativa, desenvolvida pelo Sebrae Alagoas em parceria com a Prefeitura de Viçosa, percorreu seis propriedades rurais que já colhem os resultados da diversificação. O grande protagonista é o crisântemo, conhecido historicamente como a “flor de ouro”, cujas estufas exibem cores vivas, colheitas fartas e soluções criativas criadas pelos próprios produtores.
Tecnologia no celular e soluções ecológicas
Quem entra nas estufas percebe de imediato o encontro entre o campo tradicional e a modernidade prática. Em Chã Preta, na Fazenda Val Paraíso, o produtor José controla e programa a irrigação dos canteiros diretamente do smartphone: basta acessar o aplicativo conectado ao Wi-Fi de casa para garantir a quantidade exata de água sem desperdício.
Já no povoado Olhos D’Água, em Atalaia, a produtora Rita de Cássia, da PlantGrama, adotou uma alternativa ecológica trazida de uma missão técnica a Holambra (SP): o uso de garrafas pintadas com uma tinta especial para atrair e capturar insetos nas estufas, dispensando o excesso de defensivos químicos. Com 10 canteiros ativos, Rita se surpreende com a própria trajetória:
“Gosto de desafios e de acreditar que vai dar certo. Peguei as técnicas da viagem e apliquei na minha terra; tem dado super certo. Eu nem sabia que era produtora de crisântemos e tenho me descoberto dessa forma.”
Dobrar a colheita sem gastar a mais
Em Viçosa, a Fazenda Esperança, comandada por Cícero Soares, funciona como uma verdadeira estufa-escola. Quase um ano após os primeiros testes, o local abriga 12 mil mudas em duas estufas, com a meta de chegar a 26 mil mudas e três estufas até dezembro.
Com o suporte do técnico agrícola Gênesis Monteiro, Cícero desenvolve uma técnica de poda que duplica a quantidade de hastes produzidas por cada planta. Na prática, a propriedade dobra a oferta de flores mantendo exatamente a mesma estrutura de mão de obra e insumos, com potencial para colher até 52 mil hastes de crisântemos.
A diversificação também se espalha por outras propriedades do município. No Sítio Pedra de Fogo, Ana Carnaúba já cuida de 8.500 mudas, enquanto Jéssica Teotônio consorcia as estufas floridas com a roça tradicional de macaxeira. Na Fazenda São Luiz, Margarida de Melo encontrou na flor Tango e nas folhagens de corte uma nova segurança para as despesas da casa:
“Se não tivesse amor, eu não plantaria. Faço por amor e isso tem me ajudado muito, principalmente no financeiro.”
Da estufa direto para as festas e floriculturas
Para garantir sustentabilidade ao projeto, o apoio aos agricultores contempla toda a jornada — do preparo dos canteiros à venda final. Consultorias especializadas em design e arte floral orientam os produtores para atender ao padrão estético exigido pelo setor de eventos e decoração.
Na ponta final, uma parceria com a distribuidora Bruno Flores garante o escoamento contínuo da produção para floriculturas e grandes eventos em Alagoas e em outros estados da região.
Como destaca Jacqueliny Martins, analista do Sebrae Alagoas, o segredo do sucesso tem sido a cooperação: “A visita favorece a troca de informações e a identificação de melhorias. Nosso objetivo é que eles conheçam novas técnicas, compartilhem o que já sabem e sintam a motivação de ver suas próprias terras prosperarem”.
Na união entre conhecimento técnico e dedicação diária, o interior de Alagoas mostra que a terra não apenas brota alimento, mas também floresce independência e futuro.









