Da comunidade da Passagem do Roque, em São José da Tapera (AL), para o mundo digital, a história de hoje é sobre um jovem alagoano que tinha um sonho: levar o mundo da tecnologia aos jovens do Sertão e romper barreiras onde o acesso à tecnologia ainda é um desafio.
Desse sonho nasceu o Projeto Conexão Informática. A iniciativa, criada pelo professor e programador Diogenan Lima, vem mostrando o universo da tecnologia diretamente para escolas e comunidades em 8 cidades alagoanas e com projetos para expandir ainda mais esse conhecimento.
O projeto é gratuito e foca em despertar nos jovens o uso da tecnologia como uma ferramenta para transformar o mundo ao seu redor. Com duas frentes, a iniciativa oferece duas modalidades: o workshop e o curso.
No primeiro momento, o Conexão Informática expõe e abre uma roda de conversa sobre robótica, realidade virtual, inteligência artificial e hardware. O segundo momento se torna algo mais específico, com aulas que duram de 4 a 6 meses, podendo ser sobre Web ou Python.
Ao longo de seis meses, os participantes aprendem a construir páginas web com HTML e CSS, desenvolvem o raciocínio lógico necessário para resolver problemas e dão os primeiros passos na programação com uma das linguagens mais versáteis do mercado: o Python.
O projeto Conexão Informática funciona da seguinte forma: o Diogenan vai às unidades escolares e comunidades, faz uma visita, conversa com os funcionários e alunos para conhecer a realidade do local, faz o Conexão Experience (versão menor) ou a versão completa, dependendo do tamanho da escola.
Caso o aluno tenha o interesse individualizado, pode optar pelo curso de maior extensão. A ideia de Diogenan é montar uma equipe de programadores.
As unidades de ensino que se interessarem em disponibilizar o curso podem entrar no site https://projetoconexao.com.br/ e contactar o Diogenan. Os alunos interessados em manter as aulas participam de um grupo à parte onde, duas vezes por semana, se reúnem para estudar programação e desenvolver soluções.

“Os estudantes já desenvolveram ferramentas úteis; atualmente tem quatro: remover fundo de imagem, converter PDF para Word, gerar QR Code e baixar vídeo, além de uma IA treinada para responder perguntas sobre o projeto. A de baixar vídeo é a mais usada, principalmente pelos professores. Mas já estamos desenvolvendo mais ferramentas para serem adicionadas em breve”, garante Diogenan.
Incentivo e escolha da profissão
A experiência dos cursos de workshop foi decisiva para o futuro de Everton Farias, que assistiu o workshop em 2023 e em 2024 entrou para o Projeto Conexão onde também compartilha conhecimento, estuda até hoje.
“Para mim, o projeto foi um ponto de virada. Não foi só aprender tecnologia na teoria, foi ir lá e fazer, ensinar outras pessoas e ver na prática a diferença que isso faz. No projeto Conexão, o que mais me marcou foi justamente isso, dar oportunidade para quem às vezes não teria acesso. Eu acho isso algo muito incrível, porque é algo que realmente pode mudar o rumo da vida de alguém, assim como mudou a minha visão também”.
A mudança de visão influenciou na escolha da profissão de Everton.
“Hoje eu estou cursando Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e o Diogenan teve, sim, muita influência nisso. Ele sempre me incentivou; mais do que só falar, ele mostrou na prática o quanto a tecnologia pode abrir portas, e isso acabou me dando mais certeza do caminho que eu queria seguir profissionalmente”, relata Everton.

Outra estudante que fez os cursos de HTML e CSS foi a Luanna Santos, que desde 2022 integra o projeto e passou por todas as fases.
“É uma experiência única, muitos desafios, um mundo novo. Quando eu era criança, nunca imaginei entrar para essa vida de programadora e hoje, dentro do projeto, vejo que isso é possível. São desafios bons, desafios que realmente me desafiam: estudos, projetos, workshops. Eu me identifico bastante com a parte de front-end; é um mundo de design, cores, estratégias de layout”, destaca.
Como tudo começou
O projeto começou oficialmente em 2022, de forma tímida, mas foi ganhando maiores proporções.
“Comecei inicialmente com o intuito de ajudar os professores a aprender a usar melhor as ferramentas tecnológicas, mas como não tive apoio na época, em 2022, fiz aberto para a comunidade e alunos. Foi algo voltado mais para desmistificar a tecnologia/informática; fiz algo voltado para eles conhecerem um computador, coisas simples, como as peças e para que servem”, lembra.
A partir daí, a metodologia usada por ele foi chamando atenção de profissionais da educação. “Os professores que assistiram gostaram muito e indicaram para levar para a escola estadual, informando a dificuldade dos alunos em usarem os computadores; três meses depois, fizemos uma versão do projeto maior para mais de 200 pessoas”, conta Diogenan.

Um tempo depois, Diogenan apresentou a proposta do curso para o diretor do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) em Santana do Ipanema e lá, também, fez outro workshop.
“Até ali era apenas apresentação, mas no final de 2023 comecei a ensinar programação para os integrantes do projeto. Em 2024, comprei um óculos de realidade virtual, conhecido como Meta Quest/Oculus VR. Depois, trouxe um amigo meu para palestrar em Batalha e fizemos uma edição grande. Como atingíamos escolas grandes, resolvi fazer uma versão mais compacta para ir a escolas menores, sem minha palestra, apenas workshop e alguns dos alunos falando sobre IA. Já fizemos ano passado aqui e este ano em Olho d’Água das Flores”, lembra.
Hoje o projeto já chegou a mais de 1.200 pessoas através do workshop e mais de 40 pessoas já finalizaram os cursos.
História de superação
A história de Diogenan acontece muito antes do amor pela programação e pela vontade de ensinar. Tudo começou na comunidade Passagem do Roque, a 242 km de Maceió.
“Sou do sertão e demorei para ter esse tipo de oportunidade. Tive acesso ao computador pela primeira vez aos 16 anos, na escola. Depois, minha mãe comprou um, eu já tinha uns 19 e nem internet tinha. Sempre fui curioso; depois do básico fiz um curso de manutenção, trabalhei em escola, ensinei informática e os olhos dos alunos brilhavam. Em 2013, a escola em que eu trabalhava me deu uma bolsa para eu estudar TI”, frisa.

Diogenan lembra ainda dos projetos pequenos que desenvolveu com seu irmão. “E antes disso tudo, eu e meu irmão abrimos uma escola de informática em 2010. Mesmo com toda dificuldade, mesmo ‘atrasado’, eu tive oportunidades. O projeto é uma extensão desse jovem que, por essa trajetória, pode inspirar novas possibilidades aqui para a região”, conta.
As possibilidades que Diogenan leva para os jovens do sertão já vêm se tornando realidade.
“Assim como a tecnologia, me sinto uma ferramenta que está cumprindo o propósito. Não posso dizer que estou realizado porque sei que ainda tenho muito chão a percorrer. Mas me sinto imensamente feliz e grato por cada semente que está brotando. Sou grato a Deus por tudo”, agradece.









