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Físico alagoano conquista patente federal para método que combate células cancerígenas

Inovação entra na quarta etapa de testes no Brasil e nos EUA; em entrevista ao ALNB, cientista projeta envio de dossiê à Anvisa

Uma conquista de peso para a ciência de Alagoas e do Brasil ganhou proteção oficial. O físico e físico médico Matheus dos Santos Farias, natural de Arapiraca e criado em Girau do Ponciano, teve a patente de sua tecnologia concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e publicada no portal do Governo Federal.

Em entrevista exclusiva ao Alagoas Notícia Boa (ALNB), o pesquisador celebrou a formalização do Modelo Padrão Farias (MPF), método desenvolvido no âmbito de suas pesquisas junto ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/USP), e detalhou o cronograma que pretende levar a tecnologia aos ensaios clínicos com humanos.

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A inovação consiste em uma equação diferencial capaz de prever matematicamente a evolução temporal do diâmetro de nanopartículas de ouro. Na prática médica, a ferramenta funciona como base de cálculo e controle preditivo para a nanobraquiterapia: uma modalidade avançada que utiliza estruturas radioativas em escala nanométrica para atingir tumores de forma localizada e menos invasiva, com foco inicial em pesquisas voltadas ao câncer de próstata.

O modelo reúne conhecimentos de física teórica, física médica, biomatemática, nanotecnologia, química e computação, permitindo aos cientistas simular e antecipar como essas partículas se comportam antes mesmo de entrarem em contato com tecidos biológicos.

Próximos passos

Com a patente homologada e os direitos autorais blindados, a pesquisa acelera o passo no rigoroso funil metodológico da área biomédica. Ao ALNB, Matheus explicou que o caminho total até uma eventual disponibilidade no Sistema Único de Saúde (SUS) compreende seis fases estruturadas, e o trabalho está atualmente na etapa quatro.

“Hoje são seis etapas até chegar um dia no SUS. Nós estamos na etapa quatro, que é exatamente a fase de ensaios in vivo e in vitro”, explicou o cientista ao ALNB.

Nesse estágio, os testes laboratoriais estão sendo realizados em modelos de camundongos e em culturas celulares simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos. O objetivo é mensurar a toxicidade das nanopartículas, verificar a absorção do material pelas células e confirmar se a previsão matemática do Modelo Padrão Farias se sustenta em ambientes biológicos reais.

O marco seguinte já está desenhado e exigirá um esforço regulatório complexo. A equipe de pesquisadores trabalha para consolidar os resultados laboratoriais e estruturar um dossiê técnico detalhado para submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão responsável por autorizar a entrada em testes clínicos com seres humanos.

“O nosso próximo passo agora é caminhar para solicitar um dossiê junto à Anvisa para poder começar a aplicar isso em ensaios clínicos em humanos”, destacou Matheus.

O pesquisador faz questão de ponderar que, embora a validação matemática seja um salto pioneiro, o processo científico exige cautela e tempo. Trata-se de uma tecnologia em fase investigativa, e não de um medicamento ou procedimento já disponível nas unidades de saúde para pacientes oncológicos.

Soberania e proteção

A publicação oficial no INPI garante que a fórmula não possa ser utilizada, copiada ou comercializada sem o consentimento direto de Matheus. O registro salvaguarda a propriedade intelectual contra o uso indevido no mercado internacional e assegura que os frutos da descoberta continuem vinculados ao pesquisador e às instituições brasileiras.

“A patente protege o poder de inovação. Se um cientista cria algo inédito e não protege, corre o risco de ver sua ideia apropriada”, pontuou o alagoano. Ele compara o processo ao registro de uma receita exclusiva que, se deixada desprotegida, pode ser explorada industrialmente por terceiros sem nenhum retorno ao seu criador.

Com o registro garantido, abrem-se caminhos formais para parcerias tecnológicas: “Ninguém pode usar a equação sem passar por mim antes. Posso licenciar ou negociar a aplicação com hospitais e centros oncológicos, garantindo que o crédito e os direitos continuem resguardados”, explicou.

A história de superação de Mathueus

O avanço ganha ainda mais relevância diante da trajetória pessoal do cientista no interior alagoano, marcada pela superação de barreiras escolares no início da vida acadêmica. Ao contrário do mito do gênio nato, Matheus enfrentou dificuldades severas com cálculos elementares nos primeiros anos de colégio.

“Lembro como hoje que eu tinha muita dificuldade com Matemática, inclusive com as quatro operações básicas”, relembrou. Ele atribui à paciência de sua madrinha Ângela o primeiro passo para destravar o gosto pelo aprendizado: “Matemática não é para quem se julga gênio, é para quem se dedica. Exige persistência e disposição para aprender”.

O físico também fez questão de reconhecer as professoras que moldaram sua base na educação básica, Rita, do Fundamental I; Amanda, professora de Matemática no Fundamental II; e Márcia, de Ciências, destacando que a escola pública e o acolhimento docente foram os pilares de sua vocação. O trabalho contou ainda com bolsa de estudos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), essencial para a viabilização da pesquisa em tempo integral, e colaboração internacional com Emmanuel Agunloye, da University College London (UCL), no Reino Unido.

“Eu mergulhei de cabeça no desconhecido. Não é preciso nascer sabendo para fazer ciência; é preciso ter coragem para aprender”, concluiu Matheus ao ALNB, reforçando a importância do investimento contínuo nos talentos científicos que emergem de Alagoas.

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