Enquanto outros meninos aproveitavam a infância jogando bola ou tomando banho de rio, Massilon Ferreira da Silva preferia a companhia dos livros. Nascido em Pão de Açúcar, no Sertão de Alagoas, descobriu cedo o prazer da leitura e da escrita. Décadas depois, aquela paixão pueril o levaria a uma conquista nacional: aos 72 anos, o escritor entrou para o RankBrasil, o Livro dos Recordes Brasileiros, com o maior poema épico popular do país.
A façanha veio com a obra Padre Cícero: O Homem, O Mito, O Santo, um trabalho de 384 páginas, 9.248 versos e 1.105 estrofes, distribuídas em 11 cantos. Publicado em 2024, o livro reúne poesia, história e religiosidade popular para contar a trajetória de uma das figuras mais conhecidas do Nordeste.
Para Massilon, o reconhecimento representa um marco em uma vida dedicada à literatura. “Todo escritor deseja um grande prêmio e fica feliz quando é agraciado. É o reconhecimento de seu trabalho e um incentivo para continuar fazendo o que gosta”, afirma.
Dos jornais de mimeógrafo ao reconhecimento nacional
A relação de Massilon com as palavras começou ainda na escola, quando escrevia sobre o cotidiano ao lado de outros estudantes. Os textos circulavam em pequenos jornais locais, geralmente reproduzidos em mimeógrafos. Para aqueles jovens, ver suas ideias impressas já era motivo de orgulho.
“Para nós, simples neófitos, ser chamado de jornalista já era o máximo”, recorda. Outra paixão era o rádio. Ele conta que ficava satisfeito quando o chamavam de “piolho de rádio”, expressão usada para quem não desgrudava do aparelho.
A literatura acompanhou Massilon durante toda a vida, mesmo quando as responsabilidades profissionais exigiam seu tempo. Servidor público por muitos anos, aproveitava as folgas para ler, escrever poemas e produzir matérias para jornais como Jornal de Alagoas, Jornal de Hoje e Desafio.
O cordel surgiu naturalmente desse envolvimento com a poesia. Para ele, a riqueza do gênero está justamente na liberdade de transformar qualquer assunto em versos, desde que haja inspiração e domínio da técnica.
Padre Cícero em mais de 9 mil versos
A escolha de Padre Cícero como personagem de sua obra mais conhecida tem raízes na própria infância. Como tantos nordestinos, Massilon cresceu ouvindo histórias sobre o religioso, seus milagres e sua influência na vida do povo sertanejo.
Mas o escritor quis ir além da dimensão religiosa. Seu poema também percorre a atuação política e social do Padre Cícero, personagem que considera fundamental para compreender parte da história nordestina.

Transformar uma trajetória tão extensa em poesia exigiu escolhas. Segundo Massilon, a maior dificuldade não estava na quantidade de versos, mas em selecionar os acontecimentos que mereciam entrar na narrativa.
“Para quem escreve poesia popular, desde que domine a técnica e lhe venha a inspiração, o número de versos e estrofes não faz muita diferença na hora de escrever”, explica.
O resultado foi um poema épico que levou seu nome a um público mais amplo. Entre os livros que publicou, Massilon considera a obra sobre Padre Cícero um divisor de águas, tanto pela dimensão do trabalho quanto pela repercussão alcançada.
A poesia como necessidade e o sonho do Jabuti
Mesmo depois do recorde, Massilon não pensa em abandonar a escrita. Para explicar por que continua produzindo, recorre a uma frase tão simples quanto reveladora: “Eu preciso de mim”.
A expressão, segundo ele, pode até parecer infeliz, mas já seria um bom tema para desenvolver em versos.
O poeta também demonstra confiança no futuro do cordel, especialmente pela aproximação dos escritores com as escolas e pelo uso da literatura popular como instrumento de educação. Ao mesmo tempo, reconhece as dificuldades enfrentadas pelos autores do interior, sobretudo para divulgar e comercializar suas obras.
Aos 72 anos, Massilon ainda tem uma conquista em mente: o Prêmio Jabuti, uma das mais conhecidas premiações da literatura brasileira.
Para os jovens que desejam seguir o caminho das letras, prefere deixar um conselho prático, construído a partir da própria experiência.
“É preciso construir uma base sólida, o que só é possível com muita leitura e exercício constante da escrita.”
É uma lição que atravessa sua história, desde os primeiros textos nos jornais de mimeógrafo de Pão de Açúcar até as milhares de estrofes que lhe renderam um recorde nacional.
Para Massilon Silva, a poesia continua sendo uma maneira de contar histórias, preservar memórias e, sobretudo, permanecer fiel àquele menino que encontrou nos livros seu lugar no mundo.









