A linha de chegada costuma marcar o fim de uma competição. Porém, nem sempre cruzar a marca em primeiro lugar é o que define uma vitória. Para Isabel Alvim, o término da corrida foi, na verdade, o ponto de partida para uma maratona ainda mais importante: a da inclusão.
No último domingo (12), Isabel, que é surda, estreou nas corridas de rua durante a etapa Maceió do circuito nacional LIVE! RUN XP 2026. Inscrita na categoria PCD (Pessoa com Deficiência), ela transformou a experiência em um manifesto de incentivo para que outras pessoas surdas ocupem, cada vez mais, os espaços esportivos.
Surda desde o 1 ano e 3 mesess de idade em decorrência de uma meningite, a pedagoga de 36 anos usa sua trajetória para romper barreiras. Nas redes sociais, Isabel celebrou a felicidade de correr pela primeira vez com acessibilidade, mas também apontou os desafios que vão muito além do calor e da resistência física. O Alagoas Notícia Boa (ALNB) acompanhou de perto essa jornada emocionante e traz, com mais detalhes, essa história.
Antes de tudo, inclusão e acessibilidade.
Para esta reportagem, Isabel Alvim concedeu entrevista em Libras, com tradução para o português realizada pela intérprete Givanilda Cristóvão de Oliveira do Nascimento. Ela relatou como a primeira participação em uma corrida de rua representou um momento de superação pessoal e uma oportunidade de defender mais acessibilidade para atletas surdos.
Pedagoga formada pelo Centro Universitário CESMAC, especialista em Libras e acadêmica do curso de Letras-Libras da Uncisal, Isabel atua no Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Associação dos Amigos e Pais de Pessoas Especiais (AAPPE), onde trabalha diariamente pela inclusão. Agora, leva esse mesmo propósito também para as pistas.
Segundo ela, o interesse pelas corridas surgiu a partir do diálogo com outras pessoas surdas que buscavam melhorar a qualidade de vida e cuidar da saúde física e emocional.
“Conversando com outras pessoas surdas, percebi que compartilhávamos os mesmos objetivos: diminuir o estresse, controlar a ansiedade e buscar uma vida mais saudável. Isso reforçou ainda mais a minha motivação para cuidar da minha saúde e do meu bem-estar”, relata.

Desde então, correr ganhou um significado especial. “Correr passou a significar liberdade e a oportunidade de adquirir novas experiências. Cada corrida representa um momento de superação, autonomia e crescimento pessoal.”
A inclusão faz a diferença
Embora tenha destacado o acolhimento recebido durante a LIVE! RUN XP, Isabel acredita que ainda há um longo caminho para que as corridas de rua sejam plenamente acessíveis às pessoas surdas.
Ela lembra que a presença de intérpretes de Libras durante o evento fez toda a diferença para que pudesse participar com autonomia.
“Na LIVE! RUN XP, senti-me acolhida e verdadeiramente incluída. A presença da comunidade surda e dos intérpretes de Libras tornou a comunicação mais acessível e me permitiu participar com autonomia e me sentir pertencente àquele espaço”.
Ao mesmo tempo, ressalta que a acessibilidade precisa acompanhar o atleta durante toda a prova, e não apenas na largada e na chegada.

Durante a entrevista, Isabel citou o caso de uma corredora surda inscrita nos 10 quilômetros que, por falta de comunicação acessível na divisão dos percursos, acabou realizando o trajeto de 5 quilômetros.
Para ela, situações como essa poderiam ser evitadas com sinalização visual mais eficiente e intérpretes distribuídos em pontos estratégicos.
“Uma sugestão seria ter um intérprete de Libras acompanhando o batedor ou atuando junto à equipe que fica distribuída ao longo do percurso, orientando os participantes. Assim todos conseguem participar com mais segurança, autonomia e inclusão.”
Representatividade que inspira
A participação de Isabel também tem um significado coletivo. Ela acredita que ocupar espaços esportivos ajuda a combater a invisibilidade histórica enfrentada pela comunidade surda.
“A inclusão da comunidade surda em eventos é muito importante porque deixa de tornar as pessoas surdas invisíveis para a sociedade e passa a dar a elas a visibilidade que merecem.”
Ela espera que sua estreia incentive outras pessoas surdas a acreditarem que também podem participar.
“Se elas perceberem que eu consegui, podem acreditar que também são capazes de alcançar seus objetivos. Espero que minha trajetória sirva de exemplo e incentive mais pessoas surdas a ocuparem espaços e acreditarem no seu potencial.”
Além do aspecto esportivo, Isabel destaca os benefícios que a corrida trouxe para sua saúde.
“A corrida aumentou minha autoestima, reduziu meu estresse e minha ansiedade, além de contribuir para a minha saúde mental. Hoje me sinto mais leve, com mais disposição e bem-estar.”
Um convite aos organizadores
Para Isabel, promover inclusão exige planejamento. Por isso, defende que organizadores de eventos esportivos envolvam, desde o início, tanto intérpretes de Libras quanto pessoas surdas na construção das provas.
“Acredito que, desde o planejamento do evento, a organização deve entrar em contato tanto com um intérprete de Libras quanto com uma pessoa surda. Assim é possível garantir que todas as informações sejam realmente acessíveis.”
Ela também faz um apelo para que a sociedade passe a enxergar as pessoas surdas pelo potencial que possuem.
“Quero que as pessoas entendam que nós temos as mesmas capacidades que qualquer outra pessoa. Com acessibilidade e respeito, podemos participar de todas as oportunidades.”
Ao resumir o significado da sua primeira corrida, Isabel escolhe uma frase que traduz não apenas a experiência vivida, mas também o propósito que pretende levar adiante.
“Valorização da comunidade surda.”

A etapa Maceió da LIVE! RUN XP 2026 reuniu 1.699 corredores no bairro histórico de Jaraguá, com percursos de 5 km e 10 km ao longo da orla da capital. A categoria Pessoa com Deficiência (PCD) contou com 26 atletas inscritos.







