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A foto que virou música, inspirou uma sinfonia e venceu o Leão de Ouro em Cannes

Registro feito por Paulo Pinto há 17 anos transformou um instante comum em uma criação reconhecida mundialmente
Campanha Sinfonia da Energia nasceu a partir de uma imagem registrada em Santana do Livramento (RS), cidade natal do fotógrafo (crédito: Paulo Pinto / arquivo pessoal)

O que começou como um simples registro do cotidiano transformou-se, quase duas décadas depois, em uma história reconhecida mundialmente. Uma fotografia feita pelo fotojornalista Paulo Pinto, em 2009, inspirou uma sequência de criações que culminou na conquista do Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes 2026, principal premiação da publicidade e da comunicação no mundo.

A campanha Sinfonia da Energia nasceu a partir de uma imagem registrada em Santana do Livramento (RS), cidade natal do fotógrafo. Durante uma visita à mãe, Paulo percebeu dezenas de pássaros alinhados sobre fios de energia em frente à casa de um vizinho que costumava alimentá-los diariamente. Sem imaginar o destino daquela fotografia, fez vários registros e escolheu uma das imagens para publicação.

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“Eu olhei para cima e pensei: parece uma partitura musical. Não entendo de música, então ficou apenas nessa impressão. Fiz centenas de fotos e escolhi aquela sem imaginar que, anos depois, ela realmente se transformaria em música”, relembra.

Poucos dias depois da publicação da fotografia, o músico, compositor e publicitário Jarbas Agnelli entrou em contato com uma proposta inusitada. Ao observar a posição das aves sobre os fios, ele enxergou notas musicais e decidiu transformar a imagem em uma composição.

“Era o Jarbas dizendo que tinha recortado a foto do jornal, levado para o piano e composto uma música usando a posição dos pássaros como notas. Fiquei emocionado. Uma fotografia virar música já é algo extraordinário”, conta Paulo.

Ao receber a fotografia original em alta resolução, o compositor percebeu ainda mais detalhes.

“Ele escreveu: ‘Tem mais passarinhos aqui. Tem mais notas. Vou voltar para o piano’. Meia hora depois, mandou a versão definitiva.”

Da fotografia para a música… E depois para uma sinfonia

A composição, batizada de Birds on the Wires, ganhou repercussão internacional ainda em 2009. O vídeo publicado na internet ultrapassou um milhão de visualizações em poucos dias e, no ano seguinte, foi apresentado em eventos promovidos pela Fundação Guggenheim, incluindo uma execução realizada por músicos da Juilliard School, em Nova York.

Anos depois, a história ganhou um novo capítulo. Em 2024, Jarbas Agnelli convidou Paulo Pinto para participar de um projeto desenvolvido para a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee). A proposta era ampliar a ideia original utilizando dezenas de fotografias de pássaros sobre fios elétricos enviadas por profissionais de diferentes regiões do país.

Cerca de 60 imagens passaram a integrar a partitura da Sinfonia da Energia, campanha criada para mostrar a convivência harmoniosa entre as aves e as redes elétricas. Neste ano, o trabalho foi reconhecido com o Leão de Ouro em Cannes, uma das mais importantes distinções internacionais da criatividade.

O retorno ao lugar onde tudo começou

Para participar da nova etapa do projeto, Paulo voltou a fotografar exatamente no local onde havia feito a imagem original.

“Voltamos para Santana do Livramento. Minha mãe já havia falecido. O vizinho que alimentava os passarinhos também. Era o mesmo lugar, mas outra história. Aquela fotografia ganhou uma dimensão que ninguém poderia imaginar.”

Foto culminou na conquista do Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes 2026 (crédito: arquivo pessoal)

A notícia da conquista do prêmio chegou diretamente da França, em uma mensagem enviada por Jarbas Agnelli.

“Ele escreveu apenas: ‘Estamos em Cannes. Acabamos de ganhar o Leão de Ouro’. Eu nunca imaginei que uma fotografia feita na frente da casa da minha mãe pudesse chegar tão longe.”

Um olhar simples capaz de alcançar o mundo

Para Paulo Pinto, a trajetória da fotografia mostra que grandes histórias podem nascer das cenas mais comuns.

“As pessoas procuram cenas extraordinárias, mas muitas vezes elas estão nas coisas mais simples. Todo mundo via aqueles passarinhos. Eu vi uma fotografia. O Jarbas viu uma melodia. Cada um completou o olhar do outro.”

Ao retornar novamente ao local anos depois, o fotógrafo percebeu que os pássaros já não estavam mais sobre os fios. A ausência, porém, ganhou um novo significado.

“Quando voltei, não havia mais os passarinhos nos fios. Foi aí que entendi que eles tinham ido para o mundo. E foi exatamente isso que aconteceu. Aqueles pássaros saíram dali e viajaram pelo planeta por meio da fotografia, da música e, agora, da sinfonia. No fim das contas, os passarinhos realmente voaram.”

Com Agência Brasil