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Como um jogo de celular pode ajudar alunos a aprender Física?

Professor alagoano desenvolve app que usa desafios e aprendizagem por descoberta para aproximar alunos da ciência
Jogo utiliza conceitos da aprendizagem por descoberta, teoria proposta pelo psicólogo norte-americano Jerome Seymour Bruner (crédito: reprodução)

Numa época em que os celulares fazem parte da rotina da maioria dos jovens, um professor alagoano decidiu transformar essa realidade em uma aliada da educação. Foi assim que nasceu “Katarina no Mundo da Eletricidade”, um jogo digital gratuito para dispositivos Android criado por Kleber Saldanha de Siqueira. Ele busca tornar o ensino da Física mais envolvente, interativo e significativo para estudantes do Ensino Médio.

Desenvolvido como parte de sua pesquisa de doutorado no Programa de Doutorado em Ensino da Rede Nordeste de Ensino (RENOEN), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), o aplicativo utiliza conceitos da aprendizagem por descoberta, teoria proposta pelo psicólogo norte-americano Jerome Seymour Bruner, segundo a qual o estudante assume papel ativo na construção do próprio conhecimento.

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A iniciativa representa uma proposta inovadora para uma disciplina que, historicamente, costuma ser vista por muitos estudantes como uma das mais desafiadoras da educação básica. Em vez de apenas memorizar fórmulas, os alunos são convidados a descobrir conceitos, formular estratégias e resolver problemas por meio da interação com o ambiente virtual do jogo.

Da sala de aula para a pesquisa

Professor da rede pública estadual nas escolas Lions Club e Professor José Moacir Teófilo, em Arapiraca, Kleber Saldanha de Siqueira construiu sua trajetória conciliando a docência com a pesquisa científica.

Graduado em Física pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mestre em Ensino de Física pela Ufal, o pesquisador desenvolve atualmente sua tese de doutorado em Ensino pela RENOEN, também sediada na Federal de Alagoas.

Kleber Saldanha é professor da rede pública estadual nas escolas Lions Club e Professor José Moacir Teófilo, em Arapiraca (crédito: arquivo pessoal)

Nos últimos anos, ele tem dedicado seus estudos ao desenvolvimento de metodologias capazes de aproximar os estudantes dos conteúdos da Física. Esse trabalho resultou na publicação de diversos artigos científicos em periódicos de elevada classificação da CAPES, consolidando sua atuação como pesquisador na área de ensino.

Segundo ele, a ideia do jogo nasceu da necessidade de aproximar a linguagem da escola da realidade vivida pelos estudantes.

“Vivemos em uma era digital em que a sociedade está acostumada às possibilidades trazidas pelas tecnologias. Os jogos fazem parte da cultura dos jovens e despertam interesse natural. Resolvi unir essa realidade à necessidade de oferecer um ensino mais dinâmico e significativo, especialmente na Física”, explica.

Aprender descobrindo

“Katarina no Mundo da Eletricidade” foi desenvolvido para trabalhar conteúdos de Eletrodinâmica, previstos para o 3º ano do Ensino Médio. O aplicativo apresenta dez fases, ou desafios, nas quais os estudantes precisam elaborar estratégias para solucionar problemas relacionados aos conteúdos trabalhados em sala de aula.

Cada etapa foi construída para estimular a curiosidade, a investigação e o raciocínio lógico, princípios centrais da teoria da aprendizagem por descoberta proposta por Jerome Seymour Bruner.

Segundo o professor, a ideia do jogo nasceu da necessidade de aproximar a linguagem da escola da realidade vivida pelos estudantes

Nesse modelo de ensino, o estudante deixa de ser apenas receptor das informações e passa a construir o conhecimento de forma ativa, descobrindo conceitos enquanto interage com o jogo e resolve situações-problema.

“O jogo busca materializar essa teoria dentro do ambiente digital, estimulando a autonomia dos estudantes e permitindo que construam seus próprios caminhos para compreender os fenômenos da eletricidade”, afirma o pesquisador.

Pesquisa premiada

Antes mesmo de chegar às salas de aula, o trabalho já recebeu reconhecimento da comunidade científica.

Para fundamentar a construção do jogo, Kleber realizou um estudo aprofundado sobre a integração entre a teoria de Jerome Bruner e os jogos digitais no ensino da Física. O resultado foi publicado na Revista Insignare Scientia (RIS), periódico científico vinculado à Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e bem avaliado pela CAPES.

O artigo serviu como base para o desenvolvimento do aplicativo e foi vencedor da mais recente edição do Prêmio Excelência Acadêmica, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).

No jogo, cada etapa foi construída para estimular a curiosidade, a investigação e o raciocínio lógico

Esta foi a segunda vez que o professor recebeu a premiação. A primeira ocorreu por meio de uma pesquisa desenvolvida durante atividades da disciplina Projeto Integrador, quando estudantes construíram um circuito eletrônico para medir o nível da água da caixa d’água da escola.

Segundo Kleber, o reconhecimento vai além da valorização individual.

“Receber esse prêmio representa a confirmação da qualidade da pesquisa realizada e demonstra sua relevância para o ensino. É também um incentivo importante para a ciência produzida em Alagoas e para todos que acreditam que a pesquisa pode contribuir para melhorar a educação.”

Aplicação nas escolas

Depois da fase de desenvolvimento e dos ajustes finais, o jogo está prestes a chegar às salas de aula, informa o professor. Ainda neste mês, “Katarina no Mundo da Eletricidade” será aplicado nas disciplinas de Física das escolas estaduais Professor José Moacir Teófilo e Lions Club, em Arapiraca.

A primeira etapa envolverá cerca de 140 estudantes do 3º ano do Ensino Médio. Durante esse período, o pesquisador acompanhará a utilização da ferramenta para analisar seu impacto no processo de ensino e aprendizagem.

Como a aplicação ainda não foi iniciada, os resultados referentes ao desempenho dos estudantes serão avaliados posteriormente. A expectativa, no entanto, é bastante positiva.

“Esperamos que os estudantes compreendam melhor os conteúdos de eletricidade, consigam perceber seus fenômenos e aplicações e sejam capazes de construir estratégias para resolver problemas com base nos conhecimentos desenvolvidos em sala de aula”, destaca.

Tecnologia a serviço da educação

Além de investigar o potencial dos jogos digitais para o ensino da Física, a pesquisa pretende contribuir para a construção de práticas pedagógicas mais conectadas à realidade das novas gerações.

Ao utilizar uma linguagem familiar aos estudantes, o projeto busca aumentar o interesse pelas aulas, estimular a autonomia na aprendizagem e mostrar que a tecnologia pode ocupar um papel importante quando aliada a objetivos pedagógicos bem definidos.

Depois da fase de desenvolvimento e dos ajustes finais, o jogo está prestes a chegar às salas de aula

Enquanto conclui os últimos ajustes do aplicativo e inicia sua aplicação nas escolas estaduais de Arapiraca, Kleber Saldanha acredita que o trabalho pode abrir caminho para novas experiências na educação pública.

“O prêmio da Fapeal demonstra que estamos no caminho certo. Espero que esse jogo contribua para práticas de ensino inovadoras em nosso estado e que nossos estudantes possam ser beneficiados pelas modernas ferramentas digitais”, conclui.

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