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Ex-alunos abrem cápsula do tempo enterrada há dez anos no jardim de casa

Enterrado em um cano de PVC, recipiente guardou registros, desabafos e planos de uma turma do ensino médio
Estudantes finalizaram o ensino médio em 2016, em uma escola particular em Maceió (crédito: cortesia)

No dia 22 de dezembro de 2016, entre a euforia do último ano da escola e a ansiedade pelo futuro, um grupo de alunos do ensino médio de uma escola particular de Maceió tomou uma decisão: enterrar uma cápsula do tempo para ser aberta exatamente dez anos depois.

O que começou como uma brincadeira para adivinhar o futuro profissional de cada um acabou virando um pacto de compromisso para que, uma década mais tarde, a turma garantisse uma chance de se reencontrar na vida adulta. A capsula foi aberta na noite desse sábado (4), e reuniu os estudantes num momento de nostalgia.

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O resgate do grupo esquecido

A abertura original estava prevista para dezembro deste ano, mas as férias de uma das integrantes da turma, que hoje não mora mais em Alagoas e resolveu passar a temporada na cidade, anteciparam os planos.

O grupo de WhatsApp da escola, há muito esquecido, ressuscitou rapidamente. Em poucos dias, parte dos antigos alunos voltou a interagir para combinar data, hora e local para o reencontro do 3º ano A e B. A organização ficou por conta de Juliana Soares, uma estudante engajada que foi lembrada por todos por ter sido o motivo de duas turmas distintas se tornarem uma só.

Foto tirada no dia em que a capsula foi enterrada

Juliana, que hoje atua como psicóloga, relembra com carinho a iniciativa de uma década atrás: “Quando acabou o ensino médio a gente pensava em tanta coisa. Vi a ideia da capsula e sugeri. Na época não conseguimos engajar todas as pessoas, mas até que foi legal. A gente reviveu o grupo e algumas pessoas puderam vir; nem todas, mas a vida é meio corrida, ia ser muito difícil reunir todo mundo. Mas que bom que deu certo”.

Entre desejos realizados e cartas apagadas

A cápsula reuniu fotos, documentos e cartas feitas pelos próprios estudantes. O tempo e a umidade do solo, no entanto, cobraram seu preço. Devido às ações climáticas e infiltrações, algumas cartas foram danificadas e ficaram ilegíveis, como foi o caso da mensagem deixada por Samueldemberg.

Já a carta da arquiteta Lyzia Barbosa foi uma das sobreviventes da ação do tempo. Ela relatou um pouco do que havia escrito em 2016: “Esse ano o seu terceiro ano é A e B. Foi muito conturbado, duas turmas desunidas, imaturas que fizeram durante todo o ano intrigas, mas no último dia quando vimos todos irem embora, percebemos que isto não valeu de nada e que éramos para sermos uma turma mais unida”.

Registro da turma 3ª A e B

Algumas pessoas relembraram profissões, outras deram conselhos. A carta de Isaque Januário, hoje estudante de medicina, foi um misto de diário com dicas para o futuro.

“Viagem, vá para a Europa: Itália, França ou até Alemanha. Vai se divertir. Só não fique só aqui no Brasil. Curta a vida, pois ela passa rápido. Assim como esses 10 anos passaram-se rapidamente”, dizia a mensagem deixada pelo Isaque de dez anos atrás.

O momento contou também com conversas, atualizações sobre a vida, fotos, vídeos e muitas histórias relembradas. A maior surpresa foi a precisão com que o destino agiu na vida da organizadora Juliana Soares.

 

Grupo de alunas durante sessão de fotos para a formatura, em 2016; Juliana está entre elas e se reuniu novamente no altar em 2022

“Espero que em 10 anos ainda sejamos amigas e que o tempo não nos afaste. Também espero que minhas amigas sejam madrinhas do meu casamento”, contava a carta de Juliana. O plano se cumpriu à risca: as amigas de colégio foram as madrinhas de seu casório, que ocorreu em 2022.

Imprevistos

Mesmo quem teve a carta apagada pela água não se arrependeu de aparecer. A cápsula havia sido enterrada em um cano de PVC vedado no jardim da casa dos pais de uma das alunas e, anos atrás, durante uma manutenção no local, funcionários a encontraram danificada.

Capsula precisou ser atualizada após reforma no jardim

O pai da estudante chegou a trocar o recipiente, mas avisou que o conteúdo poderia ter sofrido danos. Ainda assim, o risco de não conseguir reler o passado não desanimou a turma, e o reencontro acabou virando uma grande sessão de boas risadas e atualizações sobre a vida.

A turma fez um vídeo para comemorar o encontro e publicou nas redes sociais, confira:

 

Memórias

Entre as memórias que vieram à tona, foi a viagem que a turma fez para uma exposição sobre o Egito, em 2015. O nutricionista Marcelo Omena relembrou com diversão o episódio.

“Estávamos lá no museu, o instrutor não falava português direito, faziamos bagunça e ele perguntava se nós eramos adolescentes ou crianças, rimos muito. Nesse mesmo dia também tiramos uma fotos no espelho, tenho até hoje”.

Outra história marcante foi contada por Priscila Albuquerque, que relembrou sua estreia e despedida no basquete dos jogos internos da escola.

“Gente esse dia foi muito engraçado, eu estava treinando basquete por fora, super empolgada no primeiro tempo, quando trocou o turno e trocaram a nossa cesta do lugar eu me esqueci. Fui toda feliz, fiz a cesta pro time adversário, sai comemorando”, relembra a hoje professora de português.

A turma repetiu a foto com a placa e prometeu se reencontrar novamente em 2036

O ápice da nostalgia, contudo, foi a história clássica protagonizada por Paulo Vinicius e João Rosendo no último ano, que saíram para almoçar no bairro do Jacintinho e voltaram para a escola carregando um filhote de pato.

A fisioterapeuta Enaura Guedes relembrou que o bicho passou a aula inteira piando e os alunos faziam coro imitando o som para disfarçar o barulho.

“O pato passou a aula toda piando, e a gente piando também para disfarçar. Lembro que gastamos dois rolos de papel higiênico para limpar o cocô do bicho. Na época apelidamos de Pepeca, mas depois descobrimos que era um macho. O pato foi morar com a avó do Paulo, e anos depois ele morreu e virou um ensopado. O Paulo ainda comeu e contou que tava uma delícia”.

A pata, que na verdade era um pato, frequentou alguns dias de aula e chamou a atenção de todo o colégio

A carta da repórter

Agora uma revelação! Esta repórter, que escreve a matéria, foi uma das alunas da turma que participaram dessa experiência.

Claro que não fiquei de fora desse momento; lembrei de várias histórias com muitos detalhes. Ao contrário de alguns amigos meus, que escreveram na carta que seguiriam a profissão e de fato a seguiram, eu estava perdida e cogitei me tornar enfermeira.

A minha carta foi uma das mais bem conservadas, pois resolvi imprimir com medo de não conseguir decifrar minha caligrafia dez anos depois. Na carta, brinquei sobre o mundo: perguntei se já havia carros voadores, quantos iPhones já existiam e se haviam colonizado Marte.

“E o mundo? Como está o mundo? Muito perigoso? Mais seguro? Somos imortais já? E as escolas usam tablets mesmo? Ou isso é tecnologia ultrapassada? A superbactéria? E os robôs andam na rua? Meu Deus, tudo isso parece pertencer a uma galáxia distante. Os carros flutuam? Existem pessoas morando em Marte? Quantos iPhones existem? Se ainda existir… eu tenho o cinco e ele é incrível agora! A televisão solta cheiro e é 3D? Existe teletransporte? Meu Deus, que loucura!! Espero que daqui a dez anos eu continue sendo feliz. Espero que quando você estiver lendo isso, você sinta orgulho do presente, que agora é passado e que tornou quem você é hoje”, conta um trecho da carta.

A Beatriz de dez anos atrás gostava de escrever e pensou que o hobbie não teria continuidade “Atualmente quero ser escritora, será que… em 10 anos eu consigo escrever um livro? São tantas perguntas, são tantas dúvidas, parece tão estranho conversar com a incerteza e com os fatos que penso antes de dormir. De qualquer forma, espero que tenha valido a pena, porque só temos uma vida, e temos que aproveitar ela ao máximo”, finaliza.

A carta da repórter contou com dúvidas e curiosidades que chamaram a atenção do grupo

Trazendo para o presente, a melhor parte de poder reler é pensar que acho que nem nos melhores cenários ela, que na verdade ainda sou eu, imaginaria que não só continuaria escrevendo, como viraria repórter e estaria novamente eternizando, nas palavras, um momento como este.

Dez anos depois, as profissões mudaram, as cartas rasgaram e a rotina afastou a convivência diária. No entanto, ao desenterrar as memórias do jardim, a turma do 3º ano provou que o carinho, a conexão e as boas histórias de adolescência continuam guardados exatamente no mesmo lugar.

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