Há pesquisas que nascem de uma pergunta acadêmica. Outras começam pela escuta. Foi ouvindo histórias de mães que acordam cedo, enfrentam rotinas intensas de terapias, negociam com escolas e superam o cansaço que a pediatra Dayse Isabel Coelho Paraíso Belém construiu a primeira dissertação defendida no Programa de Pós-graduação Profissional em Educação Especial da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
A defesa marca um momento histórico para o Propgees/Ufal, desenvolvido em associação com a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal).
Criado no segundo semestre de 2024, o programa encerra seu primeiro ciclo formativo com um fruto prático e de grande impacto social: um e-book gratuito sobre saúde mental na maternidade atípica e inclusão escolar de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Quem cuida de quem cuida?
Pediatra há 30 anos com atuação em desenvolvimento infantil, Dayse encontrou no mestrado a chance de aproximar a medicina, a educação e a vida concreta das famílias.
O tema ganhou vida em parceria com a orientadora, a professora Deise Juliana Francisco, ao perceberem que as mães — principais cuidadoras — muitas vezes acabam invisibilizadas em suas próprias necessidades.
A pesquisa ganhou corpo a partir do relato de dez mães de crianças com TEA atendidas na Clínica de Terapias Especiais Espaço TEU, em Maceió.
“Para compreender, pela voz delas, como é viver essa maternidade atípica. Suas histórias, dores, forças e vulnerabilidades foram fundamentais para construir o caminho da pesquisa”, contextualiza a médica.
O e-book, intitulado Saúde Mental na Maternidade Atípica: desafios e estratégias de apoio para a inclusão escolar de crianças com TEA, parte de uma premissa direta: cuidar da saúde mental materna também é cuidar da escolarização da criança. O material defende que a inclusão vai muito além da matrícula; exige uma rede que acolha o esgotamento materno.
Da universidade para a vida real
Por se tratar de um mestrado profissional, o objetivo principal é gerar um produto educacional com aplicação prática imediata. O resultado é um manual acessível e gratuito, voltado para orientar profissionais da saúde, da educação e as próprias famílias.
No e-book, a comunidade escolar é apontada como elo essencial do acolhimento. O guia foi desenhado para dialogar com toda a estrutura escolar — de diretores e professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) a porteiros, monitores e secretários. A ideia é mostrar que a inclusão atravessa toda a escola, da portaria à gestão.
“Minha expectativa é que esse trabalho, pioneiro no Nordeste, alcance realmente seu público-alvo e contribua para multiplicar o cuidado com essas mães”, vislumbra Dayse.
Marco histórico para a Educação Especial
Para a orientadora Deise Francisco, o trabalho conseguiu unir rigor científico e sensibilidade. “Foi um trabalho muito bonito, articulado com a capacidade de dar um olhar cuidadoso e acolhedor com relação às mães atípicas”, comentou.
A coordenadora do Propgees, professora Neiza Fumes, celebra o momento como a consolidação de um planejamento de quase dez anos para a implantação do programa.
“A dissertação defendida tratou de um tema atual, necessário e, muitas vezes, invisibilizado”, reforça Neiza, destacando o papel da pós-graduação em apresentar respostas qualificadas, aplicáveis e comprometidas em transformar a realidade alagoana.








