A desenvoltura da estudante Maria Júlia, de 10 anos, ao falar inglês em sala de aula chamou atenção nas redes sociais e transformou a alagoana em símbolo de um projeto educacional pioneiro no Brasil. Aluna da primeira escola pública bilíngue do Norte e Nordeste, em Pilar, ela integra um modelo implantado há três anos pela rede municipal e que hoje desperta interesse de pesquisadores e gestores de educação de todo o país.
O vídeo da apresentação de Maju, como é conhecida, acumulou elogios pela fluência e naturalidade no segundo idioma. Estudante do 5º ano, ela já é tratada como uma influenciadora no município, localizado a 35 quilômetros de Maceió.
Desde 2025, a escola recebeu mais de 50 gestores públicos de diferentes regiões do Brasil. Durante as visitas, os 250 alunos apresentam os espaços da unidade em inglês. “Eu acho tudo isso muito legal, porque tenho a oportunidade de falar em inglês”, conta Maria Júlia, que sonha em ser advogada e conhecer o Canadá e os Estados Unidos.
A transformação também é percebida pela família. A mãe da estudante, Camila Ferreira, lembra que os resultados começaram a surgir ainda nos primeiros anos escolares. “No segundo ano, ela já lia algumas palavras, e eu fiquei maravilhada. Além do inglês, essa metodologia fortaleceu a autoestima e a concentração da minha filha. Foi um crescimento não só escolar, mas humano”, afirma. “Temos muito orgulho dela e acreditamos em um futuro brilhante”, acrescenta.
Ensino além do idioma
A repercussão do vídeo também reacendeu o debate sobre a qualidade do ensino bilíngue na rede pública. Em Pilar, a rede municipal segue a metodologia Systemic Bilingual. Desenvolvida há 25 anos, está presente em mais de 150 escolas privadas no Brasil e, com o sucesso no Pilar, passou a ser aplicada na rede pública.
Para Vanessa Tenório, mestre em Educação, especialista em Neurociência e fundadora da Systemic Bilingual, o diferencial do projeto está na forma como o idioma é inserido na rotina dos estudantes.
“A estrutura curricular integra o inglês a disciplinas como história, geografia e matemática, por meio de jornadas interdisciplinares. Ao mesmo tempo, os alunos desenvolvem habilidades socioemocionais, como comunicação e confiança para falar em público”, explica.
Segundo Vanessa, a aprendizagem ocorre de maneira mais natural quando a língua é vivenciada no cotidiano. “Primeiro aprendemos a falar, ouvindo e interagindo, e só depois compreendemos as regras da língua. Na infância, o cérebro está em intensa formação de conexões neurais, o que favorece esse processo”, destaca.
Referência nacional
Na Escola Bilíngue de Pilar, com funcionamento em tempo integral, os estudantes têm 15 horas semanais de aulas em inglês. Em um turno, cursam as disciplinas da grade tradicional; no outro, aprendem os mesmos conteúdos no segundo idioma. A unidade também oferece quatro refeições diárias e mais de 20 modalidades esportivas no contraturno.
O secretário municipal de Educação, Clewerton Cavalcante, afirma que o projeto já mudou a percepção sobre o ensino público na cidade. “Temos alunos que deixaram escolas particulares para estudar na rede municipal por acreditarem na qualidade da nossa escola bilíngue. Agora, queremos ampliar o projeto para o Ensino Fundamental II”, diz.
O impacto da iniciativa também virou tema de pesquisa acadêmica. A professora Gabriela Lotta, pesquisadora de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), conduziu um estudo sobre os fatores que impulsionaram a transformação educacional em Pilar. O resultado será publicado em livro ainda em 2026.
Veja o vídeo









