Imagem: Severino Carvalho
Coloridos e essenciais para o equilíbrio marinho e a atividade turística, os corais de Alagoas enfrentam uma grave ameaça. Pesquisas revelaram que cerca de 90% dos recifes em municípios costeiros como Maragogi, Paripueira e Maceió morreram ou enfraqueceram.
Os corais, ao contrário do que muita gente pensa, não são pedras inertes, mas organismos vivos, considerados animais invertebrados, assim como as anêmonas-do-mar e as águas-vivas. Eles sofrem, sobretudo, com o branqueamento, resultado do aquecimento global e da atividade humana.
Diante desse cenário, especialistas alertam que a luta é contra o tempo. O último verão registrou temperaturas até 3°C acima da média, o que levou à maior mortalidade de corais já vista no estado.
Apesar do impacto devastador, o branqueamento não representa morte imediata: os corais ainda podem se recuperar, desde que recebam condições adequadas de preservação e cuidados.
Para enfrentar a crise, surge uma força-tarefa envolvendo pesquisadores, órgãos públicos e startups. Uma das iniciativas neste sentido é o projeto Corais de Alagoas, que busca unir turismo, monitoramento e restauração, incentivando o uso sustentável desse patrimônio natural.
O Alagoas Notícia Boa (ALNB) mergulhou nas piscinas naturais de Maragogi para também conhecer o trabalho desenvolvido pela Biofábrica de Corais. A startup atua com berçários submersos, cultivando espécies para regenerar áreas degradadas e integrar a conservação ao turismo responsável.
O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) tem papel decisivo nesse esforço coletivo. Desde 2016, o órgão mantém a primeira área de proteção de corais em ambiente urbano do Brasil: a Piscina do Amor, em Maceió, além de ordenar o turismo nas piscinas naturais da Pajuçara.
Conheça todas essas iniciativas nesta reportagem especial produzida pelo ALNB, em texto, fotos e vídeos!
O fenômeno do branqueamento vem sendo observado há mais de 10 anos em Alagoas, que possui uma das maiores formações coralíneas do mundo. A região que concentra a maior quantidade desses organismos se chama Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, compreendida entre Tamandaré (PE) e o Rio Meirim, em Maceió (AL), com cerca de 135 km de extensão. Trata-se da maior unidade de conservação costeiro-marinha do Brasil.
Criada em 23 de outubro de 1997, por meio de decreto federal, a APA tem, dentre outros objetivos, garantir a conservação dos recifes coralíneos e de arenito, inclusive a fauna e a flora associadas, e proteger as agregações reprodutivas das espécies de peixes recifais.
Em setembro de 2024, pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que fazem parte do Laboratório de Ecologia e Conservação no Antropoceno (Ecoa), divulgaram uma pesquisa que mostrou a mortalidade de 90% dos corais de Maragogi, Paripueira e Maceió, todos integrantes da APA Costa dos Corais.
O coordenador do Ecoa, professor Robson Santos, explica que em 2024 a temperatura da água ficou cerca de 3°C acima da média para o período, chegando a 34ºC. Isso resultou em um evento intenso e de grandes proporções de branqueamento dos corais.
“O verão de 2023/2024 foi o mais grave já registrado em Alagoas. Em alguns pontos, como Maragogi, a mortalidade chegou a 80%, inclusive em áreas de conservação. Esse foi um evento histórico, mesmo em comparação com outros episódios anteriores (2016 e 2021). Tanto a comunidade científica quanto a sociedade ficaram bastante preocupadas, é basicamente um cemitério”, revelou.
A solução mais discutida pelos cientistas globais, incluindo os pesquisadores da Ufal e de outras universidades do Brasil, é tentar adotar políticas de conservação e preservação urgentes.
“O embranquecimento dos corais não tem uma solução simples ou definitiva, já que está muito ligado a fatores globais, como o aquecimento das águas. Mas em Alagoas e em várias partes do mundo estão sendo adotadas ações locais e regionais que ajudam a reduzir os impactos e a dar mais chances de sobrevivência aos recifes. Essas ações, contudo, precisam ser feitas de imediato, aproveitando os poucos corais que ainda não sofreram o branqueamento total”, explica Robson.
Para que o colorido dos corais alagoanos não fique apenas na memória e nas fotografias, foi feita uma força-tarefa para salvar o que restou. Há esperança!
Dois meses após a divulgação da pesquisa da Ufal, que constatou alta mortalidade dos corais, o Governo do Estado lançou o projeto Corais de Alagoas, com o objetivo de envidar esforços de conservação marinha.
O projeto conta com o apoio do Instituto do Meio Ambiente (IMA), da Secretaria de Estado do Turismo (Setur), da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapeal) e da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) para proteger o patrimônio natural de Alagoas, garantindo um futuro mais sustentável.
Serão investidos R$ 2,4 milhões, sendo R$ 1,7 milhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e R$ 700 mil do Governo de Alagoas. Os valores são destinados, dentre outras ações, à aquisição de equipamentos de última geração para monitorar bem de perto os corais, além de assegurar o desenvolvimento de técnicas de reprodução das espécies.
O Corais de Alagoas atua em três componentes: turismo, monitoramento e restauração.
“Nosso objetivo não é apenas a parte ambiental, mas como a gente tenta pensar essa parte socioambiental, já que Alagoas é um estado majoritariamente turístico, com um movimento muito grande para as praias. Convidamos pessoas de fora que pudessem nos ajudar nessa baita missão de salvar os corais alagoanos”, conta Robson.
A Costa dos Corais em Alagoas é uma das mais ricas em espécies, muitas delas são endêmicas, ou seja, encontradas apenas nesta região. Quando se fala de branqueamento, fala-se também da ameaça real de extinção. E quando se fala de restauração, também se discute a possibilidade de salvar espécies raras.
Das seis espécies mais encontradas em Alagoas, a Millepora alcicornis, a Millepora braziliensis (coral-de-fogo) e a Mussismilia harttii foram as que mais sofreram nos eventos de aquecimento da água do mar, e a maioria acabou morrendo.
Peça fundamental para o processo de restauração da fauna é entender quais são as espécies que possuem mais facilidade de reprodução. Para realizar esta nobre missão, a bióloga Ana Carolina Grillo veio diretamente da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, para entender melhor como o trabalho de restauração poderia ser feito.
“Os corais têm vários formatos: há corais em forma de bolinha, de árvore. E cada forma cumpre uma função diferente no ambiente. Aqui, na Costa dos Corais, temos muitos corais em forma de árvore. As espécies sofrem de maneira diferente. Há algumas que são mais construtoras do recife, como o coral-de-fogo; enquanto outras têm crescimento mais lento. Essa diferença precisa ser considerada em qualquer esforço de restauração”, explica.
Das várias características analisadas pelo Corais de Alagoas, a espécie Millepora braziliensis (coral-de-fogo) foi escolhida para ser a pioneira no projeto de restauração.
“O coral-de-fogo, por exemplo, cresce rápido e é muito usado em projetos de restauração. Estamos começando esse processo agora em Maceió. Primeiro, vamos mapear onde ainda existem corais vivos, para escolher os melhores locais e espécies para o berçário”, pontua.
Ana Carolina gravou um vídeo exclusivo para o ALNB explicando um pouco sobre como será feito o processo de restauração. Confira abaixo:
O projeto descrito no vídeo acima por Ana Carolina ainda está em fase de preparação.
“O projeto está sendo estruturado agora. Os pesquisadores estão definindo áreas prioritárias, espécies com maior potencial de recuperação e os locais onde poderemos iniciar os cultivos. A fase de implantação ainda está começando. A ideia é que os primeiros cultivos já iniciem em breve, mas é um trabalho que exige cuidado, porque precisamos garantir que as espécies escolhidas tenham chance real de sobrevivência e regeneração”, detalha Ana.
A expectativa é que, ainda em 2025, após o fim definitivo da quadra chuvosa, o Corais de Alagoas comece a fazer as intervenções. O motivo pela espera é que as fortes chuvas reduzem a luminosidade e deixam a água turva por conta do maior carreamento de sedimentos e poluição para o mar. Isso atrapalha a fixação das estruturas de restauração e reduziria a taxa de sobrevivência dos corais cultivados.
Os recifes de corais localizados em Maragogi foram os mais afetados pelo branqueamento em Alagoas. O fenômeno detectado pelos cientistas também é visto diariamente por quem faz do mar seu ambiente de trabalho. É o caso de Kelio Leite, que atua há cerca de 35 anos como mergulhador profissional no município alagoano do Litoral Norte do estado.
“Tenho dedicado minha vida ao mergulho nesta região, e nunca testemunhei um fenômeno de branqueamento tão intenso quanto o atual. Observamos a perda de cerca de 60% dos corais-de-fogo. Realizamos saídas quase diárias e constatamos o branqueamento e o aumento da temperatura da água”, revela Kelio.
E o experiente mergulhador sabe da importância ecológica e socioeconômica desse ecossistema para Maragogi, integrante da APA Costa dos Corais, a maior unidade de conservação costeiro-marinha do país.
Maragogi despontou para o turismo com as piscinas naturais, formações recifais a cerca de 6 km da costa, que atraem visitantes do Brasil e do mundo em busca de um banho termal e contemplativo, em meio a peixes multicoloridos e, claro, aos corais.
“Os corais são essenciais para Maragogi, que depende do turismo. Além de sua importância para a cidade, os corais são fundamentais para o ecossistema como um todo, servindo como abrigo para pequenos animais e atuando na filtração da água. A beleza natural da região se deve, em grande parte, à presença dos corais”, atesta o mergulhador.
Mas é do fundo do mar que também brota a esperança. A Biofábrica de Corais – Startup de Biotecnologia e Restauração de Ecossistemas Recifais – se uniu a instituições parceiras e há cerca de um ano vem atuando no trabalho de regeneração desses organismos.
“A Biofábrica de Corais é uma startup de restauração recifal. Foi fundada em 2022 e a gente trabalha com o foco de desenvolver ferramentas biotecnológicas para conservar os corais”, explica o CEO da empresa, Rudã Fernandes, engenheiro de pesca com doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A Biofábrica mantém na “fazenda submersa”, localizada a cerca de 6 km da costa de Maragogi, quatro berçários onde estão dispostas 93 mesas para o cultivo de mais de 5 mil corais das espécies Millepora alcicornis (coral-de-fogo), Montastraea cavernosa (coral casca-de-jaca), Siderastrea stellata (coral estrela) e Porites astreoides (coral-mostarda).
“A gente hoje está manejando as principais espécies construtoras na região e já vemos alguma recuperação delas. Temos identificado também áreas com potencial de serem refúgio”, revela Fernandes.
A bióloga venezuelana Maria Gabriela Moreno é chefe de Restauração da Biofábrica de Corais. Ela coordena as ações de campo desenvolvidas pela startup e também avalia como positivo o resultado do trabalho que vem sendo desenvolvido em Maragogi.
“A gente está tendo um bom resultado aqui em Maragogi. Eu acredito que, pelo fato deles estarem isolados, não ter tanta influência antrópica (humana), ter o cuidado constante dos biofabricantes, isso tem ajudado para que evoluam bem”, constata.
Com metodologia e abordagem próprias, o processo de restauração consiste na coleta de corais enfermos, tombados no fundo do mar. Esses organismos são fragmentados e dispostos em mesas de cultivo.
Eles crescem saudáveis nos berçários durante meses. Após esta etapa, são transplantados a um ambiente degradado para que atuem na recuperação da biodiversidade e repovoem a área afetada. Esta fase, porém, aguarda autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para ser implementada em Maragogi.
Os corais abrigam cerca de 65% dos peixes, favorecem a economia, por meio do turismo; protegem a costa de efeitos adversos como ventos, tempestades e o avanço do mar, dentre outros benefícios.
“A gente tem aqui os berçários desde setembro (de 2024) e agora estamos conseguindo ver como ele (o coral) vai colonizando o berço. Eu estimo que já no final de 2025, a gente consiga transplantar”, acredita Maria Gabriela, que não perde a esperança.
“É um trabalho bem de formiguinha. A gente precisa muito do apoio da comunidade, da participação. Para nós é muito importante, não só para nós biólogos, mas para a comunidade como um todo, o bem-estar desses ecossistemas. Eu trabalho com isso, então tenho muita esperança que, com a ajuda da comunidade, eles consigam realmente evoluir positivamente”.
A Biofábrica atua desde 2022 em Porto de Galinhas, no município pernambucano de Ipojuca, um dos mais movimentados destinos turísticos daquele estado. Lá, a startup já integra as atividades científicas às econômicas, primando pela sustentabilidade e o turismo de base comunitária.
O “bioturista” participa das experiências regenerativas proporcionadas pela Biofábrica de Corais. Ele se torna “cientista por um dia” e pode até adotar um coral.
A ideia é replicar o modelo em Maragogi, seguindo as características locais, após a concessão de licença ambiental do ICMBio, responsável pela gestão da APA Costa dos Corais.
“Hoje o turismo é executado somente em Porto de Galinhas. Para cada território que a gente trabalha, tem uma lista de ações que precisamos cumprir para poder implementar o turismo, mas a atividade vai variar muito de acordo com a potencialidade de cada local”, explica Fernandes.
Além de Maragogi e Porto de Galinhas, a startup atua também em Tamandaré, Litoral Sul de Pernambuco, junto ao Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio).
“No nosso principal case, que é Porto de Galinhas, a gente foca no turismo regenerativo, um turismo imersivo, onde o turista aprende na teoria o que a gente faz. Depois, ele deixa a contribuição real, ajudando a gente a manejar os corais”, acrescenta.
Em termos de restauração, já foram obtidos resultados positivos em Porto de Galinhas, a exemplo do crescimento de 40%, em 90 dias, da espécie Millepora alcicornis e crescimento de 200%, em 150 dias, da espécie Mussismilia harttii.
Terça-feira, 9 de setembro. Com a maré 0.0, segura e ideal para o passeio, embarcamos rumo à fazenda de cultivo de corais mantida pela Biofábrica no mar de Maragogi.
O embarque aconteceu a partir do Salinas do Maragogi, resort do Grupo Amarante, um dos parceiros do projeto de restauração desenvolvido pela Biofábrica. A iniciativa conta ainda com o apoio da Prefeitura de Maragogi e da Embratur.
Além dos cinco integrantes da startup, seguiram na embarcação representantes da Secretaria do Meio Ambiente do Estado da Bahia e dois da Carbono 14, startup que atua com inovação em meio ambiente para restaurar os corais da Bahia de Todos os Santos (BA), por meio do projeto Corais de Maré.
“Estamos aqui porque ganhamos um prêmio da Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia, e, no prêmio, a gente podia escolher um destino para conhecer o projeto ambiental”, revela José Roberto.
Ele é o CEO da Carbono 14. De acordo com “Zé Pescador”, como é mais conhecido, os problemas que afetam os corais na Bahia são basicamente os mesmos que ocorrem no litoral alagoano: branqueamento, provocado pela elevação da temperatura do mar; pisoteio causado pelo turismo desordenado e os efluentes industriais.
“A gente procurou vir conhecer quem está fazendo, e quem está fazendo bem, quem está restaurando a natureza, quem está abrindo possibilidades de negócios, de fortalecimento do turismo sustentável, de base comunitária também. Então a gente está aqui para aprender com quem sabe fazer o trabalho: a Biofábrica, que é referência nacional e internacional”, acrescenta.
A fazenda de corais da Biofábrica fica a cerca de 6 km da costa, um pouco além das Galés de Maragogi, principais piscinas naturais do município turístico. Na rota para os berçários, pôde-se contemplar a área de banho, repleta de turistas, numa manhã linda de sol.
A visita técnica também contou com o mergulho para observar o trabalho que é feito pelos técnicos de campo da Biofábrica. Eles fazem a limpeza das mesas onde são cultivados os corais. Os berçários são constituídos de material biodegradável, patenteado pela startup.
“Todo dia, o time vem aqui ver se os corais estão bem, ver se algum coral soltou, ver se a estrutura está ok, se alguém mexeu; tirar o sedimento que fica por cima dos corais, das estruturas de cultivo. É um trabalho bem minucioso, bem cuidadoso também, e bem focado na disciplina de você ter essa regularidade, esse compromisso com a saúde e bem-estar dos corais. Isso vai refletir na produtividade, no crescimento deles”, explicou o CEO da Biofábrica.
Biólogo marinho, Yuri Kayky Nascimento Souza é morador de Maragogi e atua como técnico de campo da Biofábrica de Corais. Ele foi um dos que fizeram a limpeza subaquática das mesas onde são cultivados os corais submetidos ao processo de regeneração. Yuri fala com orgulho da missão.
“Sinto-me privilegiado por estar fazendo isso aqui, no meu território, em Maragogi. Eu moro aqui e gostaria que muitas pessoas pudessem participar e ter a noção dessa importância, de a gente estar aqui cuidando e cultivando nossa barreira de coral, que é o nosso sustento, é o que nos mantêm vivos aqui. Maragogi sem os corais, não existe”, sentencia.
Ao longo dos anos, o trabalho desenvolvido pela startup Biofábrica de Corais vem recebendo prêmios nacionais e internacionais. Recentemente, foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como projeto global de referência da Década do Oceano.
“É um sentimento positivo. Os prêmios funcionam muito como um combustível para você continuar trabalhando, porque é um trabalho difícil e que os resultados exigem muita dedicação para serem alcançados”, comenta Fernandes.
“Então, a cada prêmio que a gente consegue, é um indicativo que a gente está no caminho correto. É também um mecanismo de aumentar a nossa responsabilidade em relação ao nosso propósito, porque alguns desses prêmios exigem contrapartidas relacionadas a processos. A gente, então, vai melhorando a nossa governança”, avalia.
Cobrindo apenas 0,1% do fundo oceânico, os recifes de corais contribuem com quase 10% do valor de turismo em áreas costeiras no mundo. Segundo dados da Biofábrica, estima-se que o turismo relacionado aos recifes de corais movimenta em média US$ 36 bilhões/ano.
Assim, a startup calcula que o turismo em recifes de corais pode gerar mais de R$ 7 bilhões na costa do Nordeste do Brasil ao ano.
A conta é a seguinte: para cada 1km2 de recifes, são gerados R$ 62,7 milhões pelo turismo. Com uma área recifal de 7,89 km2, os corais de Maragogi teriam, portanto, um valor econômico de mais de R$ 170 milhões e valor / área (km2) de cerca de R$ 21,6 milhões.
A enorme onda de calor que atingiu o mundo em 2023 e 2024 provocou danos agudos nos corais do Brasil e do mundo. Um estudo publicado na revista Coral Reefs, em 2025, apontou que a região Nordeste do país foi a mais afetada.
Os pesquisadores monitoraram 18 ecossistemas recifais ao longo de quase toda a costa brasileira, distribuídos entre o Ceará e Santa Catarina, além de duas ilhas oceânicas (Arquipélago de Fernando de Noronha e Atol das Rocas), entre agosto de 2023 e dezembro de 2024. As observações foram feitas em tempo real, antes, durante e depois do pico de branqueamento.
Os números colhidos mostraram boas e más notícias. As notícias ruins é que quatro pontos do Nordeste brasileiro registraram alta mortalidade. Além de Maragogi (AL), já apontada anteriormente pela Ufal, o fenômeno foi verificado também na costa de São José da Coroa Grande e Porto de Galinhas (Ipojuca), ambos em Pernambuco (com taxa de mortalidade de 53% e 28%, respectivamente), e Rio do Fogo, no Rio Grande do Norte (38%).
“Em média, considerando todos os sítios de monitoramento, os corais brasileiros foram expostos a 88 dias de estresse térmico nesse período, o que equivale a três meses de temperaturas acima do normal. O branqueamento afetou cerca de um terço (36%) das áreas avaliadas, com diversas espécies de coral impactadas”, diz trecho da pesquisa.
A boa notícia trazida pelo estudo é que 11 pontos observados não apresentaram perdas, apesar de terem sido submetidos ao aumento da temperatura.
“Nessas localidades, os corais branquearam, mas não morreram, e recuperaram suas zooxantelas depois que a temperatura baixou. Isso inclui todos os pontos do sul da Bahia para baixo, e do Rio Grande do Norte para cima, incluindo o Banco dos Abrolhos, o Arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas — três localidades icônicas e importantíssimas para a biodiversidade marinha do Atlântico Sul. Em outros três pontos: um em Sergipe e dois na Bahia, foi registrada apenas uma mortalidade leve, com reduções de cobertura coralínea da ordem de 5%”, pontua outra parte do estudo.
São cinco oceanos no mundo que abrigam centenas de espécies de corais. No contexto global, uma pesquisa feita em dezembro de 2024 pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) e pela Internacional para Recifes de Coral (ICRI, na sigla em inglês), apontou que, entre abril de 2023 e abril de 2024, 84% dos recifes de corais do mundo foram afetados pelo calor extremo.
Ainda de acordo com a pesquisa internacional, este é o quarto evento global de branqueamento desde 1998 e já superou o episódio de 2014 a 2017, que atingiu cerca de dois terços dos recifes.
O mundo está diante do pior evento de branqueamento já registrado na história. Devido a esses impactos citados por várias pesquisas, nos últimos anos, governos e organizações internacionais intensificaram os esforços para proteger os corais.
O Fundo Global para Recifes de Corais (GFCR) foi criado com o objetivo de canalizar e alavancar até US$ 3 bilhões em financiamentos, apoiando projetos que protejam esses ecossistemas.
O fundo, uma parceria entre os setores público e privado, foi projetado para apoiar um esforço global mais amplo para proteger a biodiversidade e, ao mesmo tempo, ajudar as comunidades costeiras a se adaptarem às mudanças climáticas.
O GFCR é co-presidido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pelo governo do Reino Unido e da Irlanda do Norte.
Enquanto isso, 45 países, que abrigam a maioria dos corais do mundo, assinaram um compromisso de proteger 125 mil quilômetros quadrados de recifes, um esforço conhecido como Coral Reef Breakthrough.
Países como a Austrália, que abriga a maior barreira de corais do planeta, vêm anunciando investimentos para a preservação dos corais desde 2018. À época, eram mais de 500 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 1,3 bilhão) para restaurar e proteger a Grande Barreira de Corais, um patrimônio natural da humanidade ameaçado pela mudança climática.
Dentro do projeto Corais de Alagoas, a equipe do professor Cláudio Sampaio fica responsável pela parte do turismo. A iniciativa entende que é importante tratar o problema, mas sem tomar decisões radicais.
O uso turístico e a proteção ambiental precisam andar juntos, uma vez que os corais envolvem grande parte da atividade econômica de certas regiões, e muitas pessoas dependem disso para sobreviver.
“Quando a gente fala de Alagoas, a gente está falando de praia, a gente está falando de um turismo extremamente bem avaliado, do ponto de vista das redes sociais. Só que uma parte desse turismo, quando desenvolvido em áreas de recife de coral, especialmente, deve ser cuidadosa. As praias têm papel social: produção de alimentos, área de lazer… Quando falamos de praia, falamos da principal atividade de lazer do alagoano. Então, o desenvolvimento de atividades turísticas nessa região precisa de muito cuidado”, explica Sampaio.
Para isso, o Corais de Alagoas, junto com o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), busca tornar sustentáveis as atividades econômicas desenvolvidas a partir do turismo, primando pela conservação.
Desde 2015, o IMA desenvolve estudos sobre a situação dos corais em Alagoas, especialmente na Região Metropolitana de Maceió. Naquele ano, na Piscina do Amor, foi identificado o branqueamento de corais.
A causa não estava apenas relacionada à crise climática atual, mas também ao excesso de atividade turística, que vinha comprometendo a saúde do ecossistema, principalmente em decorrência do pisoteio e do lançamento de efluentes no mar.
O tráfego intenso de embarcações motorizadas, a falta de orientação adequada para embarque e desembarque de turistas e a ausência de limite de visitantes contribuíram para o enfraquecimento das espécies presentes no local.
Diante desse cenário, em 2016, a Piscina do Amor foi declarada a primeira área de corais em ambiente urbano do Brasil com proteção integral. Desde então, regras definidas após reuniões promovidas pelo IMA e pelo Conselho Estadual de Proteção Ambiental (Cepram) passaram a ordenar o uso da área com vistas à conservação e à recuperação.
“Em 2016, criamos uma área de exclusão da Piscina do Amor, com a finalidade de conservação, reprodução de espécies e repovoamento dos recifes vizinhos. Ela está estrategicamente situada entre os bancos da Pajuçara e da Ponta Verde, funcionando como fonte de matéria biológica e laboratório natural para avaliarmos áreas sem pressão de uso”, explica o coordenador de Gerenciamento Costeiro do IMA, Ricardo César.
Com 42 hectares de extensão, a área conta com restrições previstas na Resolução Normativa 7997/2015, que proíbe atividades de exploração e pesca. O isolamento já traz resultados positivos. Algumas pesquisas da Ufal comprovaram a presença do mero, peixe em risco de extinção, além de outras espécies que encontraram refúgio nos recifes.
“A identificação de espécies ameaçadas, como o mero, é um forte indicativo de que a preservação está funcionando e a biodiversidade se recupera”, comemora Ricardo.
O cartão-postal da praia da Pajuçara são as águas cristalinas e os corais coloridos. Quem vem a Maceió se encanta com a possibilidade de mergulhar nas piscinas naturais. Cerca de 80 embarcações são cadastradas e aptas a realizar o passeio.
São 2 km mar adentro para dar de cara com recifes de corais e espécies de peixes. Pensando no potencial turístico, mas com cautela por causa dos corais que ali vivem, o IMA instituiu uma área de zoneamento para garantir que não sejam necessárias medidas mais restritivas como ocorreu na Piscina do Amor.
Para lidar com esse desafio, o Instituto implantou um zoneamento exclusivo, criando regras específicas de uso sustentável da área. O objetivo foi conciliar a intensa atividade turística e a pesqueira com a necessidade de conservação dos bancos de corais, já bastante fragilizados pela exploração desordenada.
Entre as medidas adotadas destaca-se o ordenamento do procedimento de ancoragem. Até então, as jangadas e lanchas lançavam âncoras diretamente sobre os recifes, causando quebras frequentes e a morte das estruturas.
Para evitar esse impacto, o IMA, em parceria com a Colônia de Pescadores Z1, instalou cabos, bóias e poitas para o ancoramento seguro em pontos fixos, sem tocar nos corais.
O uso de embarcações motorizadas também passou a ser regulamentado. Dentro das piscinas, área considerada mais sensível, foi proibida a circulação de barcos com propulsão a motor ou a jato.
O espaço interno ficou reservado apenas para embarcações a remo e à vela, que não oferecem risco direto de incidência ou turbulência sobre os recifes. Já na parte externa, foi delimitada uma zona específica para embarcações motorizadas, também com uso obrigatório das poitas para evitar danos físicos aos corais.
“Nós já constatamos uma mudança significativa depois do zoneamento. A maioria das embarcações motorizadas fica do lado de fora, como foi determinado, e dentro da piscina, os barcos estão usando os cabos e poitas para amarração, sem lançar âncoras sobre os corais. Isso reduz muito o choque físico que vinha quebrando os recifes. Esses resultados mostram que o ordenamento está funcionando e que é possível manter a atividade turística sem comprometer a preservação.”
Na manhã do domingo (21/09), a reportagem do Alagoas Notícia Boa (ALNB) esteve nas piscinas naturais da Pajuçara e conversou com banhistas e jangadeiros que fazem os passeios turísticos. Eles aprovaram o ordenamento das atividades implementado pelo IMA.
“É sempre bom preservar os corais para mantê-los vivos e manter também a tradição do nosso passeio, porque se não preservar, não cuidar, aí tudo o que não tem cuidado termina se acabando. Então é essencial”, avalia o jangadeiro Josiel Tavares Seixas, 29 anos.
Ele conta ter recebido do IMA orientações como não jogar âncora sobre os recifes, evitar o pisoteio dos corais e não permitir a retirada, para guardar como lembrança, de exemplares da fauna e flora locais.
O jangadeiro José Augusto da Paixão, 59 anos, tem uma história de amor com as piscinas naturais da Pajuçara.
“Eu nasci e me criei nessa praia aqui. Meu pai teve barco de pesca, meu vô (era) da Marinha. Sempre naveguei aqui”, revela o jangadeiro, que faz o transporte de turistas às piscinas naturais.
Ele também aprova o ordenamento das atividades e revela que com a criação da associação da categoria foi possível organizar ainda mais os passeios, em parceria com o IMA.
“Era tudo bagunçado. A gente colocou umas boias e uma marcação para o banhista ficar mais à vontade. Inclusive foram eles (fiscais do IMA) que sugeriram essas boias. As embarcações ficam atrás das boias e da boia para dentro, como se fosse um círculo, ficam os banhistas”, relata Paixão.
A reportagem do ALNB embarcou na jangada de nome providencial: “Deus Proverá”. Com a maré baixa, visitamos as piscinas naturais da Pajuçara, repleta de turistas.
Procedente do município de Andradas, em Minas Gerais, a servidora pública Jéssica Moreira, 29 anos, ficou encantada com o passeio. É a primeira vez que ela visita Alagoas.
“A gente ficou encantada, nunca tinha visto o coral tão de perto. O meu menino, ele adora peixe, adora tudo; então a gente ficou mais encantada ainda”, disse ela, que visitou as piscinas naturais da Pajuçara junto com a família.
“O passeio é muito bem organizado. A gente não teve problema nenhum. O moço da jangada também, ele é muito prestativo, ajudou a gente no que precisava. A gente não tem nada para reclamar”, afirmou a turista, com sorriso de satisfação.
Apesar das orientações do IMA, ainda havia quem insistisse em dar alimentação aos peixes para atraí-los e, assim, fotografá-los, uma prática proibida pelo IMA.
A presença quase onipresente do saberé (Abudefduf saxatilis), peixe também conhecido como “sargentinho”, indica que a biodiversidade na área é reduzida e sugere que o ambiente recifal foi impactado pela ação humana.
O coordenador do Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio), o oceanógrafo Leonardo Messias, explica que o peixe-sargento é conhecido por ser territorialista. Ele também exibe um comportamento de formar grandes cardumes para se alimentar e, dessa forma, se proteger.
“A dieta do peixe-sargento é diversificada, incluindo pequenas larvas, algas, detritos e pequenos crustáceos, aproveitando tudo o que está disponível nas piscinas naturais. Em relação à alimentação, embora não seja recomendada, a oferta de ração por humanos tem ocorrido, e, em alguns casos, de forma consistente, o que pode alterar seus hábitos”, alerta Messias.
De acordo com ele, a capacidade de se alimentar de diversas fontes contribui para sua abundância e competitividade.
“Em ecossistemas onde uma espécie apresenta alta dominância, é indicativo de um desequilíbrio. Essa preponderância ocorre quando uma espécie, por diversas razões, supera as outras em termos de abundância e influência no ambiente”, acrescenta.
De lá, seguimos pelo mar da Pajuçara em direção à Piscina do Amor. O local está interditado para passeios turísticos e outras atividades desde 2016, por isso, nos posicionados à distância.
O objetivo do fechamento da Piscina do Amor é fazer com que os recifes de corais, ainda preservados, repovoem áreas adjacentes, devolvendo vida às áreas degradadas. No local, os sons da natureza contrastam com o burburinho que fala alto nas piscinas naturais da Pajuçara.
Sobre o fechamento da Piscina do Amor, o jangadeiro Josiel afirma que o IMA tem “propósitos” para ter adotado a medida.
“É, se houve o fechamento é porque teve algum propósito para isso. Se houve o fechamento é porque eles mergulharam lá e viram que tinha que ser fechado. Porque tava demais a violação ali, em questão de mergulho. Eu acho que tava degradando os corais ali, aí foi necessário o fechamento”, conclui o jangadeiro.
Voltamos à costa acreditando fielmente na mensagem que carrega a designação da jangada em que embarcamos, mas fazendo um adendo: “Com a ajuda do homem, Deus proverá”.
Com o sucesso ecológico da Piscina do Amor, o IMA revelou que está elaborando um projeto para criar uma Unidade de Conservação Marinha Estadual. A área ficaria compreendida entre Maceió e Jequiá da Praia, aproveitando a Reserva Extrativista Federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio (Resex Marinha).
A proposta inclui não apenas abranger os recifes de corais e espécies associadas, mas também naufrágios históricos, que podem servir de substrato para a vida marinha e ter valor turístico-cultural.
“O objetivo dessa unidade é proteger, abranger, fazer a proteção de todos esses ecossistemas costeiros marinhos que são importantes. Alagoas vive da zona costeira. Então é o maior patrimônio que a gente tem. Tanto do ponto de vista ecológico, nós temos uma grande variedade de espécies, nós temos bancos de corais; inclusive, algumas espécies de corais são endêmicas aqui do Brasil, então a gente tem que proteger”, sustenta Ricardo.
Atualmente o projeto está em fase de diagnóstico: mapeamento da área, identificação das pressões (turismo, especulação imobiliária e pesca) e definição da categoria de proteção (preservação integral ou de uso sustentável).
Depois do diagnóstico, a proposta precisa ser avaliada pelo Conselho Estadual de Proteção Ambiental (Cepram), que delibera sobre a criação oficial de novas unidades no estado.
Publicado em 27 de setembro de 2025.
Reportagem:
Produção, texto e edição: Severino Carvalho e Ana Beatriz Rodrigues
Fotos:
Severino Carvalho, Ana Beatriz Rodrigues, ICMBio, Corais de Alagoas e Biofábrica
Vídeo:
Roteiro e imagens: Severino Carvalho
Resportagem: Severino Carvalho e Ana Beatriz Rodrigues
Edição de vídeo e legendas: Ana Beatriz Rodrigues